As mães da fila

“Liberdade para todos nós” desenhado na poeira de uma janela da Penitenciária Central do Estado – Unidade de Progressão

Dizem que as penitenciárias ficam longe dos olhos das capitais por questões de segurança pública, principalmente para dotados de muito patrimônio, mas é possível acreditar que essa também seja uma estratégia de negligência, incúria, prioridade. Não é difícil constatar a realidade: tente entrar caminhando pela porta da frente de uma penitenciária para ver como o dinheiro do seu imposto é aplicado. Não te deixarão entrar. As grades atuam como zelo da pena aplicada, mas não há confiança nos cadeados.

Dizem também, em tom bem mais irônico, que essas muradas feudais completam propositalmente a paisagem das margens das rodovias como penitência extra: à pessoa privada de liberdade, consciente da movimentação ininterrupta e da sua incapacidade de deslocamento; e aos familiares, que esperam horas ao tempo e ao vento para aplicar um único abraço que possa descortinar a almejada paz.

“É possível julgar o grau de civilização de uma sociedade visitando as suas prisões”, teceu Dostoiévski em Crime e Castigo, no século XIX. Decerto algumas pessoas merecem mais civilidade, acreditam os agentes de Estado, ainda que essa assertiva não esteja inscrita em nenhum livro ou mural. Ao menos essas são as impressões relatadas diariamente ao Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba em sua sede e nas inspeções que realiza semanalmente nas dez penitenciárias de Piraquara, Pinhais, São José dos Pinhais e Araucária por presos, familiares e egressos.

Um dos casos é de Miriam Costa, 39 anos. “Tomo um ônibus até o terminal de Pinhais, depois outro alimentador e por fim o Vila Macedo/Vila Militar. Uma passagem, mas três ônibus. Chegando em Piraquara existe uma dificuldade enorme no raio-X. Eles têm apenas um para atender as sete unidades. O tempo mínimo de espera é de duas horas, ainda que não tenha um único abrigo”, conta. Ela trabalha com panfletagem para comércios no bairro Novo Mundo, em Curitiba. Costuma cruzar o portão da Penitenciária Central do Estado – Unidade de Progressão (PCE-UP) pelas 10h e só sai em torno das 15h, a cada dois finais de semana, religiosamente. “Eu trabalho por dia, no sábado também. Não posso faltar ao trabalho para ir. Por isso mudaram o dia da minha visita para domingo. E é sempre essa mesma rotina”.

Em Piraquara, há duas esperas. Uma fila bate de frente com a cancela do complexo, onde fica o SOE, grupo de agentes armados que conta com simpatia mínima dos presos, e a outra se forma na entrada das penitenciárias. É comum ver muitas mulheres (mães e namoradas/esposas) vestidas com roupas muito simples e com grandes sacolas a tira colo. Para minimizar os efeitos do cárcere e da saudade, Miriam faz como as outras em dia de visita: leva um lanche reforçado para comer junto com o filho, geralmente bolo, refrigerante, salada de frutas ou pudim de leite, em movimento que deveria imitar um piquenique em família. As vezes o desfecho é inesperado e as mães voltam para casa com o lanche intacto ou deixam ele na unidade como reforço da penitência, espécie de pedágio. Não existe negociação para quem é mãe de preso. Não há cinza entre o preto e o branco.

“As visitas são muito sofridas. Tem peso duplo, né? Já tiveram piores, agora estão mais camaradas conosco. No começo todo mundo é estúpido, dificulta muito a nossa vida. Mas eu nunca tive grandes problemas. Passamos na máquina de raio-X, por uma revista básica. Mas temos que respeitar as determinações em relação ao cabelo, uso de legging, sutiã. Até mesmo o chinelo é examinado. Algumas vezes é deprimente. Somos mulheres, temos os nossos dias de menstruação. Já passei pela revista em que pedem para tirar tudo, é constrangedor. Mas quem ama o filho passa por qualquer coisa. Deixa a vergonha de lado, tudo de lado”, diz a mãe Leonice Marchi, de 48 anos, que trabalha em uma pizzaria em uma cidade distante mais de 500km de Curitiba. Ela não quis identificar o local porque sofreu uma tentativa de assassinato quando o filho de 24 anos foi preso.

Esse jovem mora na Penitenciária Central do Estado (PCE) há dois anos e atualmente trabalha na lavanderia. No último mês, foi campeão do torneio de futebol da cadeia. Segundo a mãe, já remiu mais de dez dias da pena com cursos. Ela conta os dias: em 2020, ele terá direito a progredir de regime para o semiaberto, quando a prisão é apenas da consciência, portanto cerca de 1.000 dias.

“Vendi meu carro, dei R$ 20 mil para um advogado. Meu filho mais velho foi inocentado e o outro foi condenado. Deixei tudo para trás quando fugi, até mesmo um poodle. Minha vida foi se destruindo, eu ganhava R$ 2 mil e agora pouco mais de R$ 800. E ainda tem a rotina das visitas, o sofrimento nas datas como Natal e Dia das Mães. Especialmente nessas datas, não temos vontade de fazer nada”, resume. A viagem para Curitiba demora quase dez horas. Ela deixa sua cidade às 20h de sábado e na segunda às 6h já está de volta ao batente.

Adriana de Souza, 37 anos, cabeleireira, outra mãe, conta a saída do filho de maneira diferente, em semanas: há dois anos, passa todas as segundas-feiras no Fórum de Execuções Penais para tirar um extrato da pena do jovem, e também na sede do Conselho da Comunidade para trocar uma ideia com a psicóloga Vera Silano.

“Nunca procurei uma psicóloga depois de tudo o que aconteceu, mas encontrei ajuda justamente onde achei que seria o lugar mais difícil, no Fórum, involuntariamente”, conta. “Desde a primeira semana dele no sistema, na PCE, entro no Fórum e pego a ficha atualizada. Vejo que está diminuindo. E tive ajuda providencial da Dra. Vera, da Dra. Isabel (Kugler Mendes, presidente do Conselho) e da Dra. Beth (Elizabete Subtil, diretora do órgão). Aqui nunca recebi um não. Me falaram do Conselho e desde então sou figurinha repetida aqui. Encontrei esperança nas respostas. Elas me falavam que estava tudo certo com ele, com a execução da pena. Nos outros lugares te fecham as portas, aqui você se sente acolhida para conversar”. Uma egressa que não quis se identificar citou a mesma impressão na última semana. “O Conselho é o único lugar em que há uma real tentativa de trabalhar em prol do preso. Nos outros lugares é ‘porta fechada e volta depois'”.

O filho está na Colônia Penal Agroindustrial (CPAI), no regime semiaberto, e deve sair em meados do ano que vem para o regime harmonizado (tornozeleira eletrônica). Está a espera da homologação de uma remição de 90 dias – se aprovada, acelerará o trâmite. Adriana de Souza nunca faltou em um encontro com o filho nesses dois anos. “Só tenho ele, meu marido e uma filha de 23 anos. Eles até foram em visitas, mas anda tudo muito difícil. Até para fazer a carteirinha de visitação. É muita humilhação, burocracia”, conta. Eles não vão mais a Piraquara. “Encontrei muita gente mal educada durante esses anos, gente que não tem coração. Na penitenciária não importa se você é rica ou pobre. Na fila de visita você não é ninguém. Não interessa o que você leva, se o ônibus atrasou, se você dormiu na fila para entrar mais cedo. Muitos funcionários humilham as pessoas. Começa na revista. Fui em quatro visitas na época em que tinha que tirar toda a roupa. Você não faz ideia do que é isso. É exposição, exposição, exposição”.

A revista íntima foi proibida no país em abril de 2016, ainda que agachamentos na frente do espelho aconteçam ilegalmente em algumas penitenciárias. Mais de 50% das mulheres ouvidas pelo Conselho da Comunidade ao longo dos últimos meses revelaram que passaram pelo mesmo vexame.

“Além do processo da visita, ainda tem as comidas que têm que voltar. Eles fazem picuinha por causa de comida. Para os presos é uma das poucas coisas que importam”, comenta Adriana. “Já cheguei a esperar das 2h30 até as 10h para entrar, você já entra cansada, estressada, esse já é um momento difícil na vida das mães. Já entrei bem e saí com dor de dente depois de ficar um dia inteiro na chuva. Também já saí de lá direto para um hospital porque passei o dia inteiro praticamente sem tomar água”.

Para a cabeleireira, o sofrimento imposto às mães na cancela se estende aos filhos custodiados. “Eles escondem o verdadeiro sofrimento. Sei que ele esconde de mim. Tem muita repressão lá dentro, altera o psicológico. Para conseguir estudar, por exemplo, ele teve que sair da cela com o nome de outro preso para alcançar o professor. Ele disse: ‘eu não sou fulano, mas preciso estudar’. O professor ficou com dó e aceitou. Em dois anos na PCE, ele conseguiu estudar um único mês”.

E o pior momento? “Natal de 2015”. Essa época do ano é marcada por fugas em todo o país. Uma delas ocorreu na PCE, justamente na cela do filho. Seis fugiram, mas ele optou pela permanência e ainda foi castigado com falta grave e isolamento. “Não vi ele nem no Natal e nem no Ano Novo. Você consegue imaginar o que é isso para uma mãe?”.

“Vamos tentando, vivendo”, diz Miriam Costa. Ela está doente, anda depressiva e, de quebra, ainda corre para provar a inocência do filho. Em parte, se culpa pela prisão ter ocorrido logo depois que pediu a ele que comprasse cigarro. “Ele entrou com 18 anos no sistema, acusado de um assalto no Sítio Cercado. Três caras roubaram uma tabacaria e um carro, e o abandonaram perto da minha casa. Nisso meu filho estava por ali. Ele viu um menor tirando a bateria do carro e foi ver o que era. Ele nem encostou no carro. Policiais disseram que a vítima o reconheceu e ele já foi preso. Pegaram o menor também. O carro foi deixado bem na frente de uma empresa, mas eles não nos cederam as imagens que provariam que meu filho não teve nada a ver com o roubo do carro. Ele foi condenado a oito anos. Nós ainda estamos apelando, o juiz não aceitou nenhuma das nossas testemunhas de defesa”, narra.

As mães da fila também carregam o peso das sacolas, embutidas, na maioria das vezes, de dificuldades econômicas e força de vontade. “Nas visitas, eu levo o lanche. Fora a sacola, que dá pelo menos R$ 400. Mês passado levei um rádio. Só. Era o que dava. Meu filho trabalhava registrado, ajudava a nos manter. Eu não posso. Tenho uma filha de oito anos que mudou totalmente o comportamento na escola, tem problemas intestinais. Tenho que cuidar dela”, conta Miriam. As sacolas são complementos mensais não obrigatórios que os familiares podem levar para as penitenciárias, autorizadas pelas direções, que compreendem kits de higiene, vestuário e alimentação. Porém, muitas famílias não conseguem entregar os pedidos mensalmente. A sacola também sinaliza poder e pode se associar a uma dívida, o que compromete indubitavelmente a reintegração pacífica do indivíduo.

De acordo com Isabel Kugler Mendes, presidente do Conselho da Comunidade, os kits, cada vez maiores, penalizam as famílias. “Uma compra completa custa mais de R$ 500. As famílias, geralmente muito humildes, fazem de tudo para levar alguma coisa. Se elas não levam, as vezes as facções levam. É uma relação de poder que o Estado permite que aconteça debaixo dos seus olhos”. A advogada já teve um filho preso no sistema fechado e acompanhou essas crônicas das visitas duas vezes por semana, às quartas como advogada e aos sábados como mãe. “Foi nas visitas que eu me aproximei desse mundo, que eu tive a sensação de que eu deveria entrar nas unidades e conversar com os presos. Porque são inúmeras as denúncias”, lembra.

O vice-diretor de uma unidade em Piraquara tem essa mesma impressão. “Curitiba quer o aeroporto, mas ele é de São José dos Pinhais. Curitiba quer o autódromo, mas ele é de Pinhais. Agora, Curitiba não quer as penitenciárias, garante que elas são das cidades da Região Metropolitana”. 

Um dia antes das mães entrarem nas penitenciárias, os presos jogam água e sabão pelo chão atrás de criar um tapete vermelho. Na madrugada, as filas começam a se formar e a expectativa ganha coro. Todas as semanas do ano tem o mesmo roteiro, longe dos olhos da capital.

As histórias por trás das pinturas do projeto Arte no Cárcere

Um mar (turbulento) a navegar

Passavam das 9h de um desses dias ensolarados de outono quando seis homens nada uniformizados chegaram na marcenaria da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. Quatro deles dão expediente neste galpão, tem as suas próprias gavetas. Eles lidam com chapas de madeira e serras para abastecer a unidade de vassouras e rodos. Os outros dois atendem aos funcionários da Divisão de Educação (DIED) e Divisão de Segurança e Disciplina (DISED).

Agasalhados, mas sem aparentar frio, assomavam-se para um único expediente naquela segunda-feira: borrifar tinta sobre os rabiscos de lápis de uma tela branca. Há quatro meses esses presos se tranquilizam nessas sessões semanais de pintura ministradas por um professor contratado pelo Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba. Ao pé da letra, os seis são uma dúzia, mas, como trabalham diariamente na unidade, a outra metade não pôde comparecer a essa aula acompanhada pelo órgão.

O mais animado entrou no galpão com uma picape Volkswagen rosa de cerca de 20cm debaixo do braço. Moldada de papel cartão, foi montada, como dizem, no próprio barraco (cela). Ele é loiro, alto e bastante tatuado. Parece um lutador de wrestling da Suécia, mas tem raízes no Planalto Norte catarinense. A família ainda mora no estado espremido entre Paraná e Rio Grande do Sul, por isso as suas visitas e as sacolas chegam espaçadas em meses, o que o obriga a levantar recursos com os automóveis. O dinheiro obtido com a venda dos carros de papel ajuda a manter alguns quitutes em dia na unidade, privilégio para poucos. Não cabia dentro de si diante da expectativa da visita de uma nova namorada dali alguns dias.

Esse homem de sobrenome alemão curto tem 30 anos e um pincel afiado: já coloriu 18 quadros. Ele chegou ao setor da marcenaria em 20 de fevereiro e desde então se juntou aos alunos da pintura, logo na segunda aula. O catarina foi condenado a 23 anos por latrocínio (roubo seguido de morte). Segundo a Justiça, ele foi responsável pelo assassinato e por passar a mão em um caminhão do próprio padrinho. No dia da aula, cumpria aniversário de chegada na PCE, três anos – tipo de data que ninguém comemora. Essa é a sua terceira passagem pelo sistema, está há cinco anos e quatro meses preso desde a última algemada.

Além do latrocínio, ele responde por outros dois assaltos em Santa Catarina. “A gente demora para aprender. Eu não tenho nada a ver com o latrocínio, apenas intermediei a venda desse caminhão. Mas assumo os assaltos. E veja onde estou, com 30 anos. Não tenho carro, dinheiro guardado, nem mesmo uma bicicleta”, desabafa. “Mas tenho essas aulas de pintura, os meus quadros, meus carros de papel. É uma coisa que a gente se apega, aprende e se diverte”.

E conta vantagem. Em alguns dias, uma affair de longa data o visitaria pela primeira vez dentro da unidade. Ela soube das grades através da mãe dele, se encontraram em um enterro de gente conhecida poucos dias antes. Desde então, começaram a trocar cartas e marcaram esse encontro. Segundo ele, estudaram juntos da 1ª à 8ª série em Fragosos, distrito de Campo Alegre, quando a contagem do Fundamental ainda era em séries. Além disso, tem dois filhos com outra mulher, de 10 e 12 anos. Casou-se aos 17, mas já desquitou.

“Decidi parar de fazer coisa errada quando fugi da delegacia de Mafra. Eu tinha um carro e R$ 60 no bolso. Ainda coloquei R$ 40 de gasolina e fui para Maringá porque tinha visto na televisão que era uma cidade legal para se viver. Consegui emprego em um lava-car no mesmo dia. Sempre estive envolvido com carro, auto-peças, eletrônica. Talvez por isso dos carros de papel”, conta. “Vivi com minha família por nove meses e dez dias na cidade, até policiais civis cumprirem um mandato de prisão em aberto. Eu sempre trabalhei. Na Casa de Custódia de São José dos Pinhais (onde ficou dois anos) trabalhei na costura. Também fiz remição pela leitura aqui dentro. Mas, no papel, minha saída é apenas em 2022. Os quadros ajudam a diminuir essa espera”.

“Você pode falar com alguém do fundo da cadeia (jargão usado para os recém-chegados) e perguntar para qualquer um daqui da frente para ver a diferença. Essas aulas dizem muito para nós. Elas são uma terapia, e tem pouca terapia em um lugar como esse”, diz outro, o mais jovem deles, de apenas 25, que está há sete anos custodiado. Sua pena é quase a sua idade: 24 anos e uns quebrados. Esse jovem é responsável pela alimentação dos funcionários da Divisão de Educação da unidade e se orgulha de ter remido mais de 500 dias de sua pena desde que entrou. Ele já fez cursos de mestre de obras e de hidráulica dentro da PCE, quando o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) ainda ministrava aulas nas penitenciárias do Paraná. O programa foi cancelado nos últimos anos devido a fraudes nos comprovantes.

Ele é de Campo Largo, distante cerca de 30km de Curitiba. Ficou dois anos e seis meses preso na delegacia da cidade, “na Comarca”, como comentam entre si. Ele também foi condenado por latrocínio, apesar de nem saber que esse crime tinha esse nome. “Na verdade, eu quis matar o chefe da minha mãe. Ela engravidou e eles não quiseram pagar a licença dela. Eu fiquei bem bêbado um dia, chapadão mesmo, e fui até a empresa. Não fui sozinho. Naquela confusão, teve troca de tiro e um deles morreu. Não fui eu quem matou, mas fui acusado disso. Na saída eu peguei um DVD que era da minha mãe e estava na empresa, mas joguei ele fora, no mato”, conta. “Fiquei uns 10 dias assim, meio mocado. Mas um dia os policiais chegaram na minha casa e eu contei para a minha mãe o que tinha acontecido. Eles acharam o DVD. As vítimas me reconheceram e eu já fiquei preso”.

Ele participou do campeonato de futebol organizado na PCE, mas o time não era dos melhores: jogaram oito partidas e perderam sete, algumas por placares elásticos. Ele mora na 13ª galeria, no antigo isolamento da unidade, e até o começo do próximo ano deve progredir para o regime semiaberto. “Eu não estudei depois da 8ª série, mas sempre trabalhei. Eu trabalhava em um lava-car do Shopping Barigui. Nessa época era amigo do Carlos Murilo de Almeida, lembra dele? E quando sair quero continuar trabalhando. Tenho uma irmã pequena para cuidar”. Carlos Murilo de Almeida morreu no acidente envolvendo o então deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho, em Curitiba, em maio de 2009.

O mais velho dos pintores tem 48 anos, 25 vividos atrás das grades, a idade do amigo campolarguense. Ele não pôde trabalhar naquela manhã por causa de uma infecção séria no dedão da mão direita. Semanas antes, uma madeira dançou na serra fita e ele tirou uma lasca do dedo na tentativa de conter o esparrame. E também pegou uma micose na área do corte. É a sua terceira passagem pela prisão. Ele garante que nunca teve uma falta grave (tentativa de fuga ou porte de celular), que geralmente acarreta em dias de tranca.

“Eu nunca vi um projeto de pintura como esse em todos esses anos. É muito especial, revigorante”, atesta. Já pintou nove quadros, garante. Ele é o avô da turma e também na vida extramuros: tem seis filhos (cinco meninas e dois guris) e cinco netos (uma menina e quatro guris), e ainda vive com a mesma mulher, que trabalha como doméstica, com quem se casou aos 18 anos. Passou por nove rebeliões (“horríveis, inacreditáveis”), pela lendária penitenciária do Ahú (“conheço os guardas de lá até hoje”) e só progride para o regime semiaberto no final de 2018. Dessa vez, foi preso enquanto estava empregado com carteira assinada, funcionário da prefeitura de Curitiba. Ganhava R$ 1,909,00. Agora, ganha apenas o pecúlio mensal de R$ 51. “Eu vou pintando. Logo recomeço”, garante.

Um outro marceneiro da turma também é de Campo Largo. Tem 40 anos, 15 de condenação e está desde 2014 na PCE. Antes disso passou por Foz do Iguaçu, Céu Azul, Matelândia e Medianeira, sempre permutado com outro preso. É baixo, moreno, tímido e tem fala mansa. Explica com pesar o afastamento dos pais, pena muito mais dura do que a aplicada pela Justiça. “Meu maior medo é não ver mais o meu pai. Ele tem 76 anos, venceu um câncer de próstata há apenas dois anos. Ele trabalha com madeira, me ensinou tudo o que eu sei. Mas já não temos mais contato, eles não aceitam a minha vida assim. Ainda quero ver ele quando sair daqui”, afirma.

Ele tem uma filha de 18 anos que acabou de entrar na faculdade. A ex-mulher é professora. E só sabe disso porque as visitas de outros presos contaram. “Eu não tenho mais contato com elas. Eu perdi os laços com o mundo. É minha terceira passagem já, vamos perdendo um pouco de cada vez”, lamenta. “Quando sair, no ano que vem, eu vou sumir. Vou para bem longe da família, mais uma vez”.

Uns querem fugir de outro jeito. “O que eu quero é sumir dessa vida de bandidagem, não leva a nada”, conta outro pintor, de 38 anos, que furtava casas de gente grã-fina nos arredores do Shopping Pátio Batel até ser preso pela segunda vez. “Você aprende, a gente tem que aprender. Essas aulas de pintura, por exemplo, isso a gente pode usar do lado de fora. Isso mostra que tem tanta coisa para fazer do lado de fora. Olha tudo o que eu roubava, era uma vida de mentira. Quero viver uma vida de verdade”.

Está há dois anos e seis meses preso, dois anos apenas na PCE. “Na minha primeira passagem também acabei na PCE, mas foi uma época difícil. Eu cheguei dois meses depois da rebelião de 2010 (uma das maiores da história do Paraná), então não consegui me encaixar em nada. Mas aqui eu fiz um curso de vendas, concluí o Ensino Médio através do Enem, trabalho na marcenaria. É tudo muito diferente”, pondera. Também não tem mais contatos com os filhos. “Só posso imaginá-los. No fim, é a mesma coisa da pintura. A gente imagina os cenários”.

Quem fez mais quadros foi o outro auxiliar da pedagogia, de 27 anos. Ele cuida dos documentos, auxilia o projeto de remição por leitura, leva e traz demandas do interior para os funcionários. Diz ter feito mais de 20. “Com certeza fui um dos que mais fiz. Além disso faço sacolas, bolsas, mochilas. Não que seja uma competição, mas eu me empenho muito”. Um dos seus quadros foi escolhido pela juíza Fabiane Pieruccini quando conheceu o projeto Arte no Cárcere, em visita acompanhada pela presidente do Conselho da Comunidade, Isabel Kugler Mendes.

Não é por menos, ele teve treino anterior: há algum tempo, fez parte da equipe de seis presos que completou a pintura do corredor central da PCE e os pátios de visita da unidade. Foram seis meses desenhando e colorindo o cimento bruto. É a sua segunda passagem. Na programação, de acordo com a sua ficha de execução penal, deixa a unidade em 2020, mas quer antecipar isso. Ele tenta formalizar a remição de seis meses de um curso de teologia, que fez à distância, e está tranquilo de sua inocência no caso de tráfico e homicídio pelo qual foi condenado há mais de seis anos de privação. “Eu tive minhas escapadas, mas dessa bronca eu não fui responsável”.

Os quadros pintados pelos presos serão expostos no Museu Alfredo Andersen nos próximos meses e também estão sendo vendidos para juízes, promotores e advogados para que a unidade possa comprar mais material para ampliar o Arte no Cárcere. Para Douglas Krieger, professor e artista plástico que coordena as atividades, essa experiência precisa ser replicada. “O talento deles é impressionante. Eles precisam canalizar essa energia em um bom projeto. Foram mais de 200 quadros. Eu acho que nós sempre acertamos quando o objetivo é o desenvolvimento”.

Krieger, que já completou 60 primaveras, chega a tomar quatro ou cinco canecas de café doce por aula. “Eles não param de me trazer cafézinho, rapaz. Você precisa ver. É o jeito que eles têm para agradecer”.

Bastidores do projeto

Os 12 pintores da PCE já fizeram mais de 200 quadros

Estrela: a revista que dá voz aos presos

Capa de uma das edições da’Estrela

E se sua vida tivesse que caber em uma gaveta? é a pergunta que ilustra a página 16 de uma edição da revista A Estrela, idealizada dos pés ao pescoço pelos presos da Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac) de São João Del-Rei, município de 90 mil habitantes localizado a uns 200 km de Belo Horizonte. Na mesma impressão, um preso condenado a 19 anos de reclusão entrevista o juiz da Vara Criminal de Execução Penal da cidade, Ernani Barbosa Neves, que, a certa altura, pondera: “o presídio, talvez pela massificação, talvez pelo desinteresse do Estado que transforma a cadeia em um depósito de seres humanos, não conseguiu atingir sua finalidade de ressocialização.”

A Estrela é uma das realizações concretas do Projeto VOZ, criado pela jornalista Natália Martino e pelo fotógrafo Leo Drumond. A dupla ministra workshops de jornalismo, texto, comunicação, fotografia e vídeo aos presos que querem participar do aulão. Todo o processo costuma durar apenas uma semana – para a primeira edição, a dupla chegou a dormir na Apac. Depois de dois dias de incursão, uma reunião de pauta define os próximos passos, que são conduzidos exclusivamente pelos presos. No deadline, eles entregam o material para Natália e Leo, que se encarregam de transcrever as matérias, editar as fotos, diagramar as notícias e dar palco a um mundo que em nada reflete as cenas de sangue e ódio que costumam acompanhar o noticiário de cadeia.

O nome da revista é uma homenagem ao periódico A Estrela, produzido na Penitenciária Central do Distrito Federal (então Rio de Janeiro) nos anos 40.

Para Natália, a ideia da publicação é “fazer com que queiram te ouvir, por que logo de cara ninguém quer ouvir o sistema penitenciário”. “Eu levo material jornalístico para os presos, tento familiarizá-los desse universo. Levamos cartas de outros detentos, levantamos algumas questões e passamos a ouvir”, conta. “Nós também tentamos tranquilizá-los em relação ao processo de escrita. Nós revisamos apenas erros ortográficos, mas todo o processo é deles. O Leo dá aula de enquadramento, luz, foco. Eles levam tudo isso em conta na hora de expor uma ideia”.

Os presos são os primeiros a receber as revistas, que também são entregues a autoridades do Poder Judiciário e coadjuvantes do sistema penitenciário. “Nós temos tentado contribuir com o debate de alguma maneira. A publicação tem tido bom alcance. Nós temos como prioridade combater o discurso de ódio, o discurso fácil, do bandido bom é bandido morto. Ela anda no sentido de humanizar as pessoas que estão encarceradas. Elas podem ter cometido crimes, mas elas vão voltar. O que nós temos que pensar é como está a dignidade dessas pessoas”, diz a jornalista.

Três edições já foram publicadas e a quarta, sobre uma ala que abriga população LGBT no presídio de Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte, já está engatilhada. Segundo Natália, essa experiência também tem contribuído para entender dilemas sociais das regiões onde os presídios estão instalados e também assuntos que pautam a arena pública como a política de drogas, transgêneros, empoderamento feminino e violência.

“As três edições são muito diferentes entre si. É um fenômeno que salta aos olhos. Reflete diferentes formações, conceitos, experiências. Veja o exemplo da população LGBT, que sofre todo tipo de violência. O ambiente explica a dinâmica do crime, o tipo de crime, o tamanho da pena. Em Itaúna (MG), o crime é relacionado ao tráfico. São jovens de 19 e 20 anos. Em São João Del-Rei, os homens são mais velhos, com penas altas. Já passaram muito tempo presos, com um nível educacional diferente”, relata a jornalista. “Além disso, as mulheres apresentam uma carga muito pesada de violência do passado, que trouxeram à tona. Os homens têm mais dificuldades de se assumirem como vítimas. Isso muda até mesmo as imagens de uma edição para outra, e isso tem se tornado uma surpresa”.

As histórias escritas a mão impressionam. Na edição de Itaúna, que revela as tatuagens dos detentos, um deles descreve o processo em um lugar tão carente de equipamentos. “Pode ser um chinelo colorido ou um presto-barba de plástico. Qualquer coisa serve. Derrete tudo, mistura com um pouco de água e pronto, já temos a tinta. Com uma agulha, alguém vai picando o braço na forma do desenho que se quer. E aí é só jogar a tinta por cima. Claro que fica mal-feita e nem sempre as cores saem como se esperava. Mas é suficiente”.

Outra, em ritmo de Carnaval, critica o ex-secretário da juventude do Governo Federal, Bruno Júlio, filiado ao PMDB, que disse, logo após os eventos de janeiro, que “tinha que fazer uma chacina por semana”. As mulheres da edição da Apac de Rio Piracicaba retrucam: “Aí irmão, se liga, não adianta matar preso não. Preso tem filho e família e tem no peito um coração.”

Para Natália, o cruzamento de várias ideias vindas de diferentes nichos é parte do processo de encantamento com o projeto. “Há relatos de violência cotidiana: uso de spray de pimenta, intimidação de familiares, espancamento, uso excessivo das solitárias, revista vexatória. E essas foram histórias contadas em off pelos presos, nos nossos jogos de peteca ou dominó. Mas elas também permeiam o que eles decidiram publicar. Quando falavam, falavam da violência como um todo. Do sistema violento como um todo”.

De acordo com levantamento de 2016 da Secretaria de Estado de Administração Prisional (SEAP), criada em setembro de 2016, e da seção regional da OAB, Minas Gerais faz a custódia de cerca de 60,5 mil presos em 183 unidades prisionais, respondendo pela segunda maior população carcerária do país. No entanto, o estado possui apenas 32 mil vagas. No ano passado, Minas Gerais registrou 11 motins.

“[O sistema] não é o pior do país, mas está longe de ser o melhor. Tivemos trocas políticas nas gestões, várias rebeliões, problemas nas grandes unidades, etc. Mas ao mesmo tempo temos tentado inovações. São mais de 30 Apacs, uma unidade exclusiva para gestantes e lactantes, uma unidade agrícola que funciona relativamente bem. E  algumas iniciativas que ainda carecem de exame mais detalhado, como o programa de Parceria Público-Privada. A Defensoria é uma das menos estruturadas do país, faltam mutirões carcerários e as audiências de custódia ainda estão começando a se desenvolver. Ainda não conseguimos dar condições mínimas para um tratamento penal saudável”, aponta a jornalista.

Porta de entrada

O sistema penitenciário e seus atores não costumam ser evidenciados no debate público ou até mesmo politicamente, a não ser quando viram manchete de jornal por casos de violência. Isso dificulta o trabalho de jornalistas. Para entrar nas Apacs, por exemplo, a dupla de comunicadores teve que conversar com a Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC), que regulamenta o funcionamento das unidades regionais, para oficializar uma autorização. Já a entrada no sistema tradicional foi bem mais burocrática. Houve negociação conjunta entre os diretores das unidades, a SEAP, antes e depois da sua implementação, e os idealizadores.

Para Natália, essa realidade reflete o perfil “quase feudal” das administrações das unidades. “As unidades funcionam de acordo com o perfil da direção. Na primeira unidade que visitamos, enfrentamos dificuldades. Já em São João Del-Rei, a direção é mais progressista em várias questões. Isso no sentido de cumprir estritamente o que a Lei de Execução Penal determina. Então essas personificações resultam em visões diferentes do sistema”.

E uma mudança nesse panorama, segundo o manifesto do projeto, só pode ser alcançada com voz. Natália e Leo são a cabeça da Estrela. Ele é fotógrafo, documentarista e professor da PUC Minas. Ela trabalhou em revistas de São Paulo, como a IstoÉ, e enfrentou de perto as barreiras impostas sobre a população carcerária. Já os presos que participam do programa assinam três tipos de autorização, para fotos e textos: direito autoral sobre o conteúdo produzido; direito do uso de imagem e direito de obra coletiva. Depois disso, dedilham flashes e memórias. A ver, na esperança da Estrela cruzar as fronteiras do estado mineiro.

Confira as edições

A Estrela APAC de Rio Piracicaba (MG)

A Estrela APAC de Itaúna (MG)

Revolução silenciosa: juíza instrui presos a mediar conflitos em Rondônia

Juíza Larissa Pinho de Alencar Lima em visita regular à unidade que atende, em Santa Luzia do Oeste

Os presos de Santa Luzia do Oeste, município localizado a 503 quilômetros de Porto Velho, capital de Rondônia, são os principais atores do programa Vida Nova: Educação Que Dá Sentido à História, idealizado pela juíza Larissa Pinho de Alencar Lima. Implementado em 2015, ele visava reduzir a reincidência na comarca em 5%, mas até setembro de 2016, segundo a magistrada, não foi constatado envolvimento dos detentos colocados em liberdade em novos delitos.

O programa tem duas vertentes casadas: ensina os presos dos regimes fechado e semiaberto a se tornarem mediadores de conflitos para solucionar problemas internos do presídio ou da cadeia pública de forma pacífica e disponibiliza aulas em vídeo sobre escuta ativa, respeitabilidade, responsabilidade e comunicação não-violenta.

Para Larissa Pinho de Alencar Lima, o principal objetivo é preencher o ambiente carente de recursos dos estabelecimentos penais do estado. “Os presídios não têm as estruturas mínimas de estudo e, quando têm, os próprios apenados não se sentem motivados a participar. Nossa ideia foi começar a buscar outro olhar, com formação mais humanística”, aponta. “Não adianta ensinar matemática, português, tudo do zero, para alguém que nunca teve acesso a isso. Eles não vão aprender o beabá. Nós trabalhamos com agricultores, pedreiros, gente de profissão comum, que não demanda qualificação técnica. Eles são isso e vão fazer isso para o resto da vida. É o que aprenderam em casa, dos avós, dos pais. O objetivo do programa é estender o aprendizado com essa visão”.

De acordo com a magistrada, além dos resultados já alcançados em um país com índices de reincidência que ultrapassam 50%, o programa tem custo zero. “Nossa ideia foi fazer o Vida Nova de forma bem criativa, com vídeos, e os temas foram sugeridos pelos próprios presos. Eles queriam que abordássemos meio ambiente, trânsito, Lei Maria da Penha. Nós pegamos essas ideias e fomos convidando as pessoas, colegas meus que são juízes federais, promotores, defensores públicos. Eles são os personagens dos vídeos”, explica.

Os custodiados treinados ao longo desses dois anos foram selecionados pela própria unidade penal por bom comportamento. Eles não poderiam ter cometido falta grave nos seis meses anteriores ao início das aulas. O treinamento dura em torno de três horas e acontece na própria unidade ou no Fórum da cidade. Os presos são acompanhados periodicamente para que exponham os resultados aplicados dentro do sistema penitenciário. “É importante deixar claro que não se trata de justiça restaurativa e sim de mediação de conflitos”, reforça a juíza.

As aulas em vídeo são exibidas em televisões instaladas em um corredor próximo às celas. Os programas têm cerca de uma hora de duração. Após assistirem, os presos debatem o conteúdo com a ajuda de voluntários. E ao fim de cada módulo eles entregam uma redação para a magistrada com as impressões sobre o tema. O programa foi finalista da 5ª Edição do Prêmio Patrícia Acioli de Direitos Humanos em 2016, entregue no Rio de Janeiro.

Além dos presos, os agentes penitenciários também são treinados. “O trabalho dos agentes é extremamente precarizado. Dentro da mediação temos a formação dos agentes. O curso tenta informá-los sobre questões de saúde e qualidade de vida. Se eles estão bem, os presídios funcionam melhor. Eles gostaram bastante dos resultados alcançados”.

Juíza Larissa Pinho de Alencar Lima entrega certificado a participante do projeto

Importância

O Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário de Rondônia e a Corregedoria dos Presídios do estado determinaram que as demais comarcas da região instalassem o mesmo programa dentro de suas possibilidades. Atualmente, ele está presente em apenas quatro comarcas. “O projeto está pronto para ser replicado. O sistema está falido, nós precisamos de medidas alternativas para mediar conflitos, tentar reduzir os problemas do sistema”, afirma a juíza.

“Eu tenho certeza que o programa traz respostas imediatas. Ele diminuiu a taxa de reincidência na comarca, diminuiu a incidência de faltas graves. No ano passado, praticamente não tive que fazer audiência de justificativa. Os presos começam a ter outra visão de mundo, mais respeitosa. É o que almejamos”, completa Larissa.

Rondônia faz custódia de quase 18 mil presos, de acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, de 2014. A população do estado é de aproximadamente 1,78 milhões de habitantes, taxa de um preso a cada 99,3 habitantes. A média do Paraná, por exemplo, é inferior. O estado faz custódia de aproximadamente 31 mil presos, mas possui 11,2 milhões de habitantes, taxa de um preso para cada 362,6 habitantes.

O programa Vida Nova também tem o apoio da Escola da Magistratura do Estado de Rondônia (Emeron). “Está evidente que a estrutura do sistema prisional brasileiro é amplamente insuficiente para atender as necessidades e, principalmente, abarcar e assegurar os direitos do reeducando – como direito ao estudo, à educação formal e a cursos profissionalizantes, dentre outros. Em razão dessa ausência de estrutura, a sociedade civil e, por vezes, o Poder Judiciário objetivam minimizar as consequências dessa situação”, afirma o site oficial do projeto. “Sabe-se que, dentro do sistema prisional, há muitos reeducandos que não possuem escolaridade alguma ou pouca escolaridade. Além disso, muitos são analfabetos. Pensando nessa situação, o projeto contempla a inclusão social dos analfabetos, que podem interagir e participar de uma maneira mais acessível e elaborar relatórios de forma verbal.”

História da vida real: um pescador arrependido

O pescador Eliezer Cristiano de Jesus se entregou no Conselho da Comunidade nesta terça-feira (11), em plena Semana Santa. A história parece encomendada, mas seu nome é verdadeiro, autorizado para este relato.

Eliezer tem 30 anos e há pouco mais de um estava foragido, vivendo em Guaratuba, no litoral do Paraná. O patrão, amigo remansado, empregou-lhe em um barco de pesca que tentava a sorte em alto mar, “sob chuva ou sol”. De segunda a segunda, às 3h, por 365 dias, ele acordou, jogou uma água doce na cara e singrou as ondas mar adentro. Voltava perto do meio-dia, limpava o que tinha que limpar e antes das 18h já estava recolhido em casa, com medo de ser descoberto. “Vivia num dos piores bairros da cidade, beco do tráfico mesmo, barra pesada. A polícia aparecia direto lá. Eu não podia sair de casa. Eu sei toda a programação da Globo e do SBT, pode perguntar”.

O afã forasteiro o ajudou a bancar algumas contas de três filhos: uma menina de 1,2 anos, uma de 6 e outro de 10. Ele foi casado por 11 anos – o filho mais velho está sob a guarda da sua mãe, as duas sob a da ex.

A mãe é adotiva e namorava o sobrinho da sua tia sanguínea quando o recolheu. A mãe sanguínea optou por abandoná-lo dentro de um saco preto de plástico às beiras de um latão de lixo quando tinha apenas três dias. O único a ser abandonado. A mãe de sangue criou outros onze filhos, menos ele. Nenhuma explicação. Ele chegou a perguntar isso para ela. Nenhuma explicação. Com 17 dias de vida, foi registrado pela mulher que o acolheu, vestiu e o viu caminhar.

Quando fugiu, Eliezer Cristiano de Jesus cumpria pena na Colônia Penal Agroindustrial do Paraná (CPAI), na sede, havia pouco mais de 20 dias, após ter sido recapturado em uma abordagem policial de rotina. Escapou pela porta da frente na carona de um táxi depois de passar por um tratamento no ombro no hospital Angelina Caron, que tem convênio com o sistema penitenciário para atendimentos emergenciais. Ele queria ser tratado também de um problema de broncopneumonia e bronquite asmática, que o acompanham desde sempre, mas não foi atendido. Também havia pedido para deixar a sede e ir para a Olaria da CPAI para trabalhar. Sem sucesso, indignou-se. Resolveu fugir.

Quando foi capturado pelos policiais, antes de parar na Colônia, estava em uma estação-tubo de ônibus em um bairro de periferia. Entrou na revista que era dada a jovens negros, e havia um mandado de prisão expedido contra ele. Eliezer acabou trancado, pela terceira vez.

A extensão do mandado se referia ao primeiro crime que havia cometido, em 2010. Assalto com arma branca. Ficou preso no 8° Distrito Policial e na Casa de Custódia de Piraquara, e foi solto com o compromisso de assinar em juízo seu débito com a justiça. Disse não ter sido aviso e não rubricou uma única vez papel algum. Sumiu. A justiça buscou.

Estava há três meses desempregado e não via mais alternativas para colocar dinheiro em casa. Tinha 23 anos, pegou uma faca da cozinha, convidou um “noia” para participar e assaltaram, ironicamente, uma estação-tubo. O crime rendeu R$ 123. Deu R$ 23 para o “noia” e foi preso em flagrante por policiais a paisana. Desde então o turbilhão piorou.

Sofreu um processo enquadrado na Lei Maria da Penha por ter desferido um soco na então namorada, alegando que ela tentou acertá-lo com um facão. Passou um tempo na delegacia de Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba.

Em 2014, se envolveu em outro quiprocó. Desta vez, diz não ter participado de nada. Eliezer era um dos líderes sem-terra do assentamento da Caximba quando policiais cumpriram mandado de reintegração de posse no local. Um companheiro foi levado com drogas, ele teria interpelado os policiais e foi levado acompanhado. Diz ter ouvido eles combinando: “Para ferrar com ele, vamos passar na minha casa, pegar droga e por no * dele”. Passou seis meses entre a delegacia de Colombo, a CCP e a PEP 1.

Entre os dois crimes, foi condenado a pouco mais de oito anos de prisão. Contando as passagens, ainda lhe restam sete anos e um pouco mais para cumprir. Quando fugiu, queimou todos os documentos. Agora, se entregou. O filho disse para ele pagar o que ainda devia para poder transitar em paz. Na quarta-feira (12), foi ouvido pelo juiz da 1° Vara de Execuções Penais de Curitiba e sentenciado a voltar para a CPAI, onde aguardará a progressão para cumprir o que ainda deve em regime aberto, sem precisar se esconder.

Eliezer tem duas irmãs da mãe adotiva: uma é enfermeira e a outra é agente comunitária de saúde. Terminou a 8° série apenas e já trabalhou nas pizzarias Baggio e Di Più, e como garçom em um bar no bairro Rebouças. Também entrou para uma Igreja Batista. “Não seria justo continuar na religião sem pagar pelos meus pecados”. 

A nova escolha errada de Kendra

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Em meados de fevereiro, Kendra Canedo Zanetti teve em mãos essa escolha: encarar as ruas na cola de uma tornozeleira eletrônica ou dormir mais sete meses no cárcere do regime semiaberto. A sabatina foi capitaneada pelo juiz Moacir Dala Costa, da 3ª Vara de Execuções Penais, durante um mutirão carcerário. Ela mal titubeou depois de ouvir defesa e acusação e optou pela liberdade. Kendra havia passado os dois anos anteriores no regime fechado da Casa de Custódia de São José dos Pinhais.

Na terça (21), ela esteve no Conselho da Comunidade para reverter sua decisão: Kendra não teve o apoio dos pais com os apitos da máquina no pé, não conseguiu um único emprego informal em liberdade e, na colcha, também queria rever o sétimo namorado. Ela queria que o Conselho intercedesse em seu favor.

Kendra nasceu William Canedo Zanetti e enfrenta dupla adversidade: o preconceito contra transgêneros dentro do cárcere destinado aos homens e a pecha de perambular sob vigilância – e também de calça, em qualquer ocasião. “Geraria um constrangimento absurdo para os clientes”, chegou a ouvir da dona de um salão de beleza ao tentar um encaixe numa vaga de cabeleireira. 

Kendra é manauara das mesmas paisagens da pena de Milton Hatoum, mas em sua identidade é possível ler Tibagi, na região dos Campos Gerais do Paraná. Ela foi adotada aos cinco meses de idade, logo após a mãe de parto quase ter lhe entregue aos cuidados do rio. Não tem um único sotaque nortista. Ela sempre soube de tal condição, e aos cinco anos caiu em si também sobre a questão de gênero: havia nascido homem, mas era feminina dos pés à cabeça. Aos 12, contou para os pais, que nunca lhe dirigiram um senão. Ela tem dois irmãos mais novos e diz que nunca sofreu, nem mesmo na escola. “Eu sempre fui muito segura e tive apoio. Até mesmo na escola: nunca me escondi e sempre me defendi”.

Aos 16, largou o terceiro ano do Ensino Médio para cair na rua, “vítima de companhias daquela época”, assegura. Ela tem 28 anos e passou os últimos 12 nesse cai-recai. Traficou e usou grandes quantidades de pó em uma casa noturna, ao lado dos programas e das apresentações de pole dance. Teve seis maridos. Ela conta: dois morreram a bala, no submundo, um morreu atropelado e os outros três relacionamentos tiveram fins naturais. “A gente foi se afastando, afastando, até terminar. Não foi nada traumático”.

Ela chegou a faturar R$ 17 mil em único dia nesses dias de Laranja Mecânica. “Eu nunca tinha visto tanto dinheiro. Tudo na minha mão, dinheiro vivo”. Mas também viu vacas magras, e chegou a pegar algumas coisas da própria casa para vender. “Mesmo assim eu sempre senti o amor dos meus pais. Acho que é um amor até mais forte do que eles têm com os meus irmãos, que são biológicos. Eu decepcionei eles, mas agora quero dar a volta por cima”. A mãe nunca deixou de visitá-la enquanto esteve presa na Casa de Custódia de São José dos Pinhais (CCSJP). Pai e irmãos nunca apareceram.

Ela chegou na CCSJP em 2013 para morar na 5ª Galeria, o famoso “seguro”, onde ficam os “presos sem convívio”. Diz ter participado dessa decisão. “Se eu ficasse com os outros, teria que entrar com droga, celular, essas coisas. Não teria escapatória. No seguro, não”. Ela dividia a cela com outros seis homens, “todos muito respeitosos”. Nessa ala, não trabalhou nem mesmo como faxina, que é entregue aos presos que podem circular por toda a unidade. Foram dois anos na rotina cela-pátio. “Não foram bons, é óbvio, mas também consegui pensar mais em mim”.

Logo em seguida, foi transferida para a Colônia Penal Agroindustrial, onde a prisão é da consciência, e fez a pior das escolhas: se evadiu, junto do marido da época. 

No dia 3 de fevereiro, depois de meses foragida, se entregou. Já havia contra ela um novo mandado de prisão. Ela ficou na Casa de Custódia de Piraquara, onde são aplicados os castigos de fuga da Colônia. No dia 6, cinco agentes penitenciário a seguraram a força e cortaram seu cabelo intacto de doze anos. Perdeu parte da força ao voltar a ficar com “cara de homem”, como disseram. Seu drama se desenrolou até o juiz Moacir Dala Costa colocar Kendra para fora da penitenciária. Com a tornozeleira, ela teria que permanecer em casa das 23h às 5h, mas, sem emprego, se viu impedida de colocar um único tostão em casa por vias legais. Agora, com o auxílio do Conselho da Comunidade, ficará até o dia 20 de setembro na Colônia Penal Agroindustrial, e, ao sair, não terá mais que ligar a tornozeleira na tomada. Isso se fizer as escolhas corretas.

Kendra tem voz afiada, fala sem amarras. “Tem muito empresário de Curitiba que usa boneca à noite. E pagam fortunas. Nós sabemos todos os nomes. E também todas as histórias.” Quais? “Deixa para quando eu voltar, com cabelão grande novamente”. Ela não vai trocar o sexo, como dizem. “Não tenho coragem. Nunca criei coragem. Muitas amigas minhas se mataram depois da cirurgia. Por enquanto, vou ficar com o que Deus me deu”.

E o namorado? “Estou louca para vê-lo”.

O livro refeito de Sandro

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Os originais rabiscados a caneta de A Teoria do Sentimento: Força que Constrói e Destrói pereceram engavetados no xadrez 16 da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, ao lado de pertences de outra dezena de homens. Em 2010, fogo e estrondos de um motim consumiram papel por papel do livro. Sandro Melanski, autor daquelas páginas, conta com visível incompreensão dos quatro ou cinco dias de tensão e mortes pelos corredores tomados de gente. Alguns carregavam cabeças de um lado para o outro como no Amazonas. Foram oito vítimas.

Essa semana turbulenta antecedeu sua transferência para a Penitenciária Estadual de Piraquara I (PEP I), onde ficou mais três anos, até passar para o regime semiaberto da Colônia Penal Agroindustrial. De 2013 a 2015, instalou-se em um banheiro desativado de uma antiga capela, armado desta vez de uma Olivetti para reescrever o livro queimado.

A Teoria do Sentimento, escrito por Sandro e editado pela portuguesa Chiado, será lançado neste sábado (18) na Livraria Cultura do Shopping Curitiba. Se romper a barreira dos mil exemplares vendidos, a editora vai lançar o livro no México, Estados Unidos, Irlanda e Inglaterra. O contrato do escritor condenado a 74 anos e mais uns meses de prisão por furto, roubo e latrocínio e a editora lisboeta é de três anos.

Sandro foi preso aos 21 e cumpriu 19 anos da pena (entre entradas e fugas das delegacias), de modo que passou quase metade dos seus quase 41 anos atrás das grades. A filha, de 13 anos, nasceu no pouco sol dos seus dias.

Seu sentimento à época das detenções nem teoria tinha: puro ódio. Os pais digladiavam entre si, um dos seus oito irmãos foi encontrado enforcado e a família pulava de casa em casa em Curitiba e Região Metropolitana ao primeiro sinal de polícia – o pai era foragido e mais tarde cumpriu 12 anos de prisão. Nessa de viver itinerante, Sandro largou a sexta série, experimentou crack e vivia em turma jogando bola e cometendo delitos ao longo dos dias. “Eu tinha mente do mal mesmo. Esse era o sentimento que estava representado em mim. Me deixei levar por ele. Nessa época, eu nem pensava em nada. Alguém convidava para alguma coisa e eu ia, fosse para roubar, pular, correr. Tive uma explosão de sentimentos negativos”. Nesses anos, ele chegou a matar um colega por R$ 10.

Sandro foi detido uma vez, mas fugiu. Na segunda, foi achado pela Cope, mas fugiu. Na terceira, foi levado para a “furtão” (Delegacia de Furtos e Roubos), e de lá não conseguiu escapar. Foi transferido para o presídio do Ahú, mas continuou acorrentado às gangues. Entre tentativas de furto e posse de celulares e serras, passou muito tempo na solitária. Continuou agitado, mas começou a sossegar.

A certa altura, trancafiado, começou a disparar cartas para um amor dos tempos de moleque. Contra tudo e todos, ela embarcou no ônibus até a prisão. Ele pediu que ela não voltasse. Ela voltou e sua vida mudou. Teoria é todo dedicado a ela. A filha deles, ele jura, será modelo.

“O amor dela fez o meu amor reviver. Eu tinha prometido para mim mesmo que não iria amar ninguém. Mas tudo muda quando você passa a amar alguém de verdade. Eu quebrei mais uma regra, a minha própria, mas desta vez para o bem. Por causa desse amor eu comecei a recuar das coisas erradas. E para não ficar longe dela, prometi a mim mesmo que não iria mais para o castigo. Desde então, nunca mais fui”, orgulha-se. “Durante esses anos, eu li minha mente. Também passei a entender os enigmas da Bíblia. Conhecendo o criador, conheci a criatura. Adquiri forças para barrar o mal. É disso que se trata o livro, de olhar para si e reconhecer outra pessoa”.

Durante seu cárcere, outro irmão foi assassinado. “Escrevendo, vivenciei de perto o que eu estava pondo no papel. Recebi essa notícia e meu primeiro ímpeto foi de vingança, mas depois pensei melhor. É justamente essa batalha que travamos o tempo todo em nossas vidas”. O livro, salada de experiência pessoal e autoajuda, também versa sobre resistência.

Na Colônia, após uma juventude inteira no regime fechado, Sandro se dedicou para valer a escrever o livro apagado. Mas só depois de faxinar os pátios atrás de uns R$ 30 e poucos de pecúlio. “Ficou melhor do que da primeira vez”, assegura. Olivetti em mãos, ele não saía nem para ver o pôr do sol. E também não estudou mais do que a sexta série. “Ou estudava ou fazia livro. Ele precisava sair, já era a segunda vez. Eu entrava na sala de aula e já falava para a professora que eu estava trabalhando em um livro. Ela nunca me repreendeu”.

Com o exemplar em mãos, depois de dois anos de dedicação, Sandro pediu autorização para o juiz Eduardo Fagundes, da 1ª Vara de Execução Penal, para trabalhar nos trâmites de espalhá-lo. “Ele me deu 30 dias para ficar fora da Colônia. Aí mostrei o orçamento do livro. A cada oportunidade, eu fui mostrando para ele a minha evolução, e ele foi me dando mais confiança”, conta. A tiragem do primeiro livro custou R$ 6 mil, metade arcada pelo Conselho da Comunidade, que apadrinhou essa história.

Pouco tempo depois Sandro passou ao monitoramento eletrônico e encasquetou de mandar os originais para uma editora. A Chiado respondeu com uma aprovação em menos de dez dias, mas com uma condição: ele teria que escrever o livro novamente, pela terceira vez, agora no Word.

“Os juízes de condenação me falavam que eu tinha uma personalidade voltada para o crime. E esse também é um problema da cadeia: é um depósito de seres humanos. O Estado não faz o trabalho de reeducação. Ele só quer liberar vaga, prender mais, liberar vaga. Aqueles que querem mudar têm poucas oportunidades dentro, mas no regime semiaberto você consegue se destacar. Basta procurar os órgãos e pedir ajuda. Eles vão dar oportunidade. Nada pode ser maior que o teu objetivo nessa hora”, conta. “Um colega meu começou a escrever um livro sobre música dentro da Colônia, e eu sempre procurei incentivá-lo, mas é difícil. Aqui fora, encontrei ele na rua, com crack na mão. Não é fácil dar a volta por cima”.

Para bancar as contas, Sandro trabalha em parceria com uma imobiliária. Ele toca todo tipo de serviço manual, mas cuida basicamente das vistorias de entrega dos inquilinos. Ele apresenta os orçamentos e toca as obras. Tem empresa, com CNPJ e tudo, e até funcionários dependendo da grana acertada. Mas o seu sonho é se dedicar aos livros e palestras motivacionais. “Meu livro está ao lado do Augusto Cury nas prateleiras. Já estou sendo vendido em Portugal. Olha o que eu fiz?”. E você já leu Cury, Sandro? “Não tenho paciência para ler. Não consigo mais. Na penitenciária, só li a Bíblia. Talvez quando eu estiver mais tranquilo financeiramente e depois de cumprida toda a minha pena”.

Sandro deve tirar a tornozeleira eletrônica neste ano, mas ainda tem uns 40 anos de débito com o passado.