Regiane de Matos Martins tem apenas 27 anos e duas passagens pelo regime fechado

O interesse de Regiane de Matos Martins por metalurgia e metal-mecânica é evidente. Aos 27 anos, ela acumula no currículo cursos de auxiliar de serviços automotivos, automação, injeção eletrônica e anos de serviços prestados na Bematech dentro da Penitenciária Feminina do Paraná (PFP), onde passou duas temporadas. Todas as oportunidades longe do comércio de drogas foram na direção das peças, parafusos e roldanas.

Ela saiu do regime fechado em 31 de março deste ano em um mutirão carcerário e agora cumpre o restante da pena com uma tornozeleira eletrônica a tiracolo. As coisas não andam fáceis, diz, mas com a ajuda do Conselho da Comunidade e do Escritório Social ela iniciou e concluiu um curso de operadora de empilhadeiras – a primeira a enfrentar esse volante com ajuda do órgão.

Nesta terça-feira (1.º), Regiane veio ao Conselho contar que conseguiu esticar o aprendizado com um emprego de carteira assinada na mesma área. “Começa daqui a pouco meu segundo dia”, orgulha-se. Tem mais. Ela aproveitou para pedir para a juíza da 2ª Vara de Execuções Penais, Luciana de Lourdes Tesseroli, por intermédio do Conselho, uma mudança na restrição de horário no monitoramento para poder entrar no terceiro turno da empresa. Foi autorizada.

Regiane tem uma longa história de desencontros. Ela foi presa pela primeira vez em 2011 e cumpriu um ano e três meses no regime fechado e seis meses no semiaberto. Na falta de um emprego, ou de um bico qualquer dentro das leis, reincidiu no tráfico de drogas e acabou detida novamente, desta vez condenada a três anos e quatro meses no regime fechado – de um total de dez anos de pena. Diante dessa realidade, ela só vai retirar a tornozeleira eletrônica em meados de 2019 se não conseguir descontar os dias com trabalho e estudo.

Contudo, a história começa ainda antes. Os pais de Regiane eram viciados em droga e perderam a guarda dos filhos muito cedo, de modo que os primeiros 16 anos da vida dela se passaram em um orfanato longe do seio da família. Três dos seus irmãos também ficaram até os 18 anos no mesmo orfanato e uma irmã fugiu com 14 anos.

Quando saiu, Regiane reencontrou a mãe. O pai já havia falecido. Embora a matriarca se esforçasse para não recair, segundo a egressa, o desafio era impossível dado o costume avançado. “Ela começou a vender até mesmo os meus pertences para manter o vício”, afirma. Nessa cena, Regiane perdeu qualquer perspectiva que não fosse o comércio de entorpecentes. Vendia, mas nunca usou.

Na segunda prisão, por um rearranjo da vida, ficou na mesma cela que a mãe e uma irmã. Não puderam viver a mocidade juntas, mas encontraram amizade no cárcere. Na prisão, Regiane trabalhava com solda na Bematech, o que reduziu sua pena um bom tanto. Também terminou o Ensino Médio, fez o Enem e alcançou nota para cursar Administração fora da penitenciária, mas, como não tinha recursos para entrar com um pedido junto ao juiz que executa a sua pena, não obteve autorização para participar das aulas presenciais.

Também arrumou poucas e boas por causa da família. Uma briga de uma delas com uma agente virava uma briga de três. Na paz, do outro lado, também. Quando Glória, agente penitenciária que depois virou chefe de segurança da PFP, salvou a mãe de um piripaque, o agradecimento veio em dose tripla.

As irmãs ainda enfrentaram o motim de março, que durou 23 horas – um dos mais longos da história do regime fechado feminino no Paraná. Elas estavam na galeria D, que teve todas as portas estouradas depois de 15 horas de rebelião no pavilhão de cima (galerias B e C). “Foi um dos momentos mais terríveis da minha experiência lá dentro. Nenhuma presa quer passar por uma rebelião. Violência não tem glamour”, conta.

Hoje em dia, do lado de fora, mora com a mesma irmã dos tempos de cárcere, também monitorada eletronicamente pelo Poder Judiciário, o irmão de 18 anos que deixou o orfanato ao completar a mocidade e uma sobrinha de 4 anos, filha de um genro que cumpre pena na Penitenciária Central do Estado (PCE), maior unidade de regime fechado masculino do Paraná. Os irmãos pagam aluguel em uma casa muito pequena na Região Metropolitana de Curitiba.

No começo da segunda saída do cárcere, em meados de maio desse ano, Regiane conseguiu um trabalho na sede do Depen, no Água Verde, para lidar com a limpeza dos corredores e banheiros, mas em pouco tempo procurou o Conselho da Comunidade com a oferta de um programa na Habilitare Cursos Profissionais de operadora de empilhadeiras. As aulas duraram três dias e fizeram com que ela conseguisse se encaixar em um emprego no turno da noite como fiel representante dos conhecimentos adquiridos em sala e passasse para a segunda etapa em um teste na Renault, multinacional que tem uma fábrica nos arredores da capital.

“Uma das nossas principais plataformas é a oferta de cursos. Já nos procuraram para um curso de cuidador de idosos, cabeleireiro, panificador. Nós temos parcerias com diversas instituições com o objetivo de ofertar uma nova oportunidade para os egressos através da educação”, comenta Isabel Kugler Mendes, presidente do Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, órgão que atende cerca de dez mil presos, egressos e familiares no Paraná.

Regiane só teve tempo de uma palavrinha nesta terça. À noite, com o beneplácito da Justiça, dará prosseguimento na operação de levantar e baixar grandes fardos – como a vida, afinal.

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