Em preparação para a cerimônia de encerramento do Festival Internacional de Corais de Curitiba, o Cantoritiba, no dia 20 de agosto, no palco do Teatro Guaíra, o coral da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) levou o espetáculo Fronteiras para a Penitenciária Central do Estado – Unidade de Progressão (PCE-UP), em Piraquara, neste sábado (24). Cerca de 100 dos 180 presos da unidade participaram da apresentação, que contou com oito músicas, aplausos, euforia e emoção. Uma das canções escolhidas para o roteiro foi Paciência, de Lenine, que a certa altura versa simbolicamente sobre o tempo: “Será que temos esse tempo. Pra perder? E quem quer saber?”.

Para a idealizadora do espetáculo e maestrina do coral, Priscilla Prueter, a ideia do encontro foi a sensibilização entre o tema e a realidade. “Foi importante para os alunos e também para os presos. Para o coral, é fundamental vivenciar a realidade. Não se trata apenas de música, mas também de consciência. E nosso tema é justamente a limitação. Para essa apresentação, nós trabalhamos com os refugiados, com árabes, que falaram sobre a experiência de vir para o Brasil em busca de uma nova vida. A entrada na penitenciária fez parte desse entendimento, compreender a separação. Quem a sociedade considera ‘do bem’ e ‘do mal’, os nossos preconceitos”, conta a maestrina.

O tema nasceu da imposição do presidente americano Donald Trump de um muro entre os Estados Unidos e o México. “Quando ele se elegeu, eu estava justamente estudando o Holocausto e os reflexos, a Guerra Fria e o Muro de Berlim. Nos dois últimos anos nós tratamos da consciência negra, então é um processo de olhar para o que está acontecendo ao redor”, conta Prueter.

Para abordar essas fronteiras, físicas e sociais, o coral trabalha com presos e também refugiados, cegos e surdos. Fazem parte do conjuntos da UTFPR 52 membros, entre servidores, professores, técnicos, alunos e interessados da comunidade. 34 participaram da apresentação em Piraquara, que contou ainda com uma música japonesa, cantos em latim e a cobertura da RPC TV, afiliada da Rede Globo no Paraná.

Os ensaios do coral, que já ganhou uma edição do Cantoritiba e desta vez se apresentará em cerimônia ilustre, começaram no dia 21 de março. No início de abril, a maestrina teve a ideia de levar a apresentação para uma unidade do sistema prisional, o que foi facilitado pela participação de uma aluna que trabalha no Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) e ajudou a intermediar as negociações. A apresentação estava marcada há um mês.

Para Prueter, o show foi simplificado pelo envolvimento dos presos. “A receptividade foi gigante. Nós levamos uma mensagem de paciência, renovação. É importante pensar que muitos deles tiveram contato com um coral pela primeira vez, e isso acontece justamente dentro de uma penitenciária. Essas são as fronteiras, o muro que separa as realidades. Quando eu perguntei se alguém já tinha participado de um coral, apenas um deles levantou a mão. Disse que tinha frequentado um coral da igreja. Essa unidade tem conseguido proporcionar isso para eles”, conta. “Um outro disse ‘aqui a gente recebe carinho, amor e apoio’. É incrível como eles não tiveram oportunidade disso do lado de fora. Talvez até voltem um dia para a penitenciária, mas se um mínimo sair e conseguir se reestruturar… Isso vale todo o projeto”.

A ideia, dos dois lados da moeda, é de prosseguir o laço em alto e bom som. “Um agente penitenciário comentou comigo que era maestro. Eu falei para ele montar um coral. Talvez até uma banda. Entre 180 presos, com certeza alguém toca algum instrumento. Lógico, guardadas as devidas precauções, mas não há porque não”, comenta Prueter. Cinthia Maria Mattar Bernardelli Dias, diretora da PCE-UP, concorda com a ideia de continuidade. “Eu tenho muita vontade de montar um coral dentro da penitenciária. E senti que, se eu precisar de ajuda, teremos todo o apoio do coral da UTFPR. Foi uma experiência única e sensacional”.

Para Dias, os presos receberam o coral de uma “forma maravilhosa”. “A ideia de trazer projetos para a unidade é fazer com que a pessoa se sente viva, importante. Nós temos nos preocupado em mostrar o outro lado da vida, não são só as grades. É preciso que eles pensem desta forma”, explica a diretora.

Culto ecumênico

Além da apresentação do coral, a PCE-UP também recebeu um culto ecumênico inédito nesta sexta-feira (23). Organizado por sete entidades – Templo das Águias (evangélica), Comunhão Cristã ABBA, Igreja do Evangelho Quadrangular, Pastoral Carcerária Católica, Igreja Missão Cristã, Assembleia de Deus e Igreja Batista -, o evento foi patrocinado pelo Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba e pelo Depen. Pastores, padres e irmãs cantaram e rezaram ao lado dos 180 detentos, que foram recebidos com mensagens de paz e da oportunidade de um recomeço.

Isabel Kugler Mendes (microfone), presidente do Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, e Cinthia Maria Mattar Bernardelli Dias, diretora da PCE-UP, durante o culto ecumênico. Foto: Osvaldo Ribeiro/Sesp
Presos participam do culto ecumênico. Foto: Osvaldo Ribeiro/Sesp
Anúncios