Quando o interesse se sobrepõe às dificuldades: preso irá cuidar de idosos

O Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba vai ajudar um preso do regime monitorado a participar de um curso de cuidador de idosos a partir de agosto. A ideia, inédita para este órgão, partiu do interesse do próprio apenado.

João* distribuiu currículos em vários lugares assim que se amarrou na tornozeleira eletrônica, fez um cadastro no Sine e descobriu que há vagas para cuidador de idosos em Curitiba – das raras profissões com mais oferta que procura. Na ocasião, foi informado de que a seleção para essas vagas depende da aprovação em uma capacitação. Como não tem dinheiro para bancar seu recomeço, procurou o Conselho da Comunidade para aventar a possibilidade de uma parceria: ele assume o compromisso de comparecimento e o órgão arca com os custos de quatro aulas mensais durante quatro meses, a partir do segundo semestre deste ano.

Nesta quinta-feira (23), João retornou ao Conselho para acertar os últimos detalhes e contou outra vitória: conseguiu emprego, o que lhe dará oportunidade de remição para antecipar o desligamento da tornozeleira. A partir de segunda-feira (26), irá lavar carros em um estacionamento na Av. Presidente Kennedy, no bairro Portão, das 8h às 17h. Aos sábados, iniciará o curso de cuidador de idosos.

A vida dele começa a traçar novos rumos, apesar de um fato preocupante. Assim que chegou na Colônia Penal Agroindustrial (CPAI), há nove meses, prometeu que não iria mais fazer coisa errada. Passou a trabalhar nos jardins da sede quando chegou – triagem imposta aos novatos do regime semiaberto – e logo arrumou um encaixe na Risotolândia, empresa que serve as marmitas para mais de 10 mil presos e funcionários diariamente em Piraquara. Lavava as caixas depois que as quentinhas eram entregues.

Os bons comportamentos no alojamento e na labuta abriram as portas de um segundo trabalho, desta vez na Gráfica e Editora Monalisa, que emprega cerca de 20 presos do regime semiaberto. Eles saem pela manhã da unidade e retornam no fim do dia para a Colônia.

Nessa empresa, depois de algum tempo, começou um relacionamento afetivo com uma funcionária. Nos dias de portaria (quando os presos são autorizados pela Justiça a passar alguns dias longe do cárcere), fortaleceram o caso, apesar do casamento civil dela com outro homem.

Pareciam mares de sessão da tarde, mas o dia transformou-se em noite rapidinho. Numa manhã, o comando descobriu sua escorregada num relacionamento extraconjugal, crime passível de punição severa nas leis éticas das penitenciárias do Paraná e de grande parte do país. À noite, nesse mesmo dia, ouviu um dos comandados ao telefone com outro preso, do regime fechado, colhendo o resultado do tribunal. Na hierarquia do comando, as unidades têm “disciplinas” que repassam casos como dívidas, traições e questões comportamentais a um grupo responsável pelo julgamento e pela execução da “nova pena”. Ouviu que teria que tomar o gatorade, concentrado de bebida isotônica com cocaína e viagra que leva à morte em no máximo duas horas. Na mesma noite, pediu para ser transferido para a ala do seguro (oposição ao comando, presos envolvidos em crimes sexuais e contra crianças, policiais, agentes públicos ou presos sem qualquer convívio), o que foi acatado pela direção. Ao chegar ao Parque, reduto do seguro na CPAI, foi impedido de permanecer porque durante mais de dez anos obedecera as ordens do comando nas cadeias. Evadiu, se apresentou no Fórum de Execuções Penais e conseguiu uma tornozeleira ao explicar ao juiz competente a eminência do sumiço.

Nessa sua última passagem pela Colônia, permaneceu por nove luas cheias. Ele tem 31 anos e entrou no sistema aos 18, condenado a 16 anos e 10 meses por tráficos, assaltos e receptações. Fugiu e voltou a delinquir inúmeras vezes, e escapou de uma grande rebelião em um desses hiatos.

Na primeira visita ao Conselho, João deixou uma carta, assinada de próprio punho, se comprometendo a comparecer às aulas. “Por oportuno informo também que estou atualmente cumprindo pena pela 1ª VEP [Vara de Execuções Penais de Curitiba], no qual estou com monitoramento eletrônico, e não tenho condições de arcar com as despesas do curso mencionado. […] Solicito essa ajuda para que eu possa me ingressar na área de trabalho, assim obtendo uma ressocialização mais eficaz”.

No curso do Seduc Intec, que ele trouxe ao órgão, ele aprenderá que o cuidador é a pessoa que presta assistência a acamados, idosos enfermos ou plenamente saudáveis. Ao término, sairá capacitado para trabalhar em clínicas de repouso, centros de convivência e em casas particulares. Nas aulas, vai aprender anatomia e fisiologia voltada à geriatria, legislação sanitária, higiene da terceira idade, prevenção de acidentes, primeiros socorros, farmacologia, fisioterapia geriátrica, integração social, noções de nutrição e odontologia geriátrica.

Desde 2001, o trabalho de cuidador é reconhecido pelo Ministério do Trabalho. De acordo com projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 63 milhões de brasileiros serão idosos em 2050 – 172 idosos para cada 100 jovens, ou seja, uma “população tardia”. Ironicamente, o destino ideal para quem vai começar a viver a vida adulta aos 31.

*Nome fictício.

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