Um mar (turbulento) a navegar

Passavam das 9h de um desses dias ensolarados de outono quando seis homens nada uniformizados chegaram na marcenaria da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. Quatro deles dão expediente neste galpão, tem as suas próprias gavetas. Eles lidam com chapas de madeira e serras para abastecer a unidade de vassouras e rodos. Os outros dois atendem aos funcionários da Divisão de Educação (DIED) e Divisão de Segurança e Disciplina (DISED).

Agasalhados, mas sem aparentar frio, assomavam-se para um único expediente naquela segunda-feira: borrifar tinta sobre os rabiscos de lápis de uma tela branca. Há quatro meses esses presos se tranquilizam nessas sessões semanais de pintura ministradas por um professor contratado pelo Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba. Ao pé da letra, os seis são uma dúzia, mas, como trabalham diariamente na unidade, a outra metade não pôde comparecer a essa aula acompanhada pelo órgão.

O mais animado entrou no galpão com uma picape Volkswagen rosa de cerca de 20cm debaixo do braço. Moldada de papel cartão, foi montada, como dizem, no próprio barraco (cela). Ele é loiro, alto e bastante tatuado. Parece um lutador de wrestling da Suécia, mas tem raízes no Planalto Norte catarinense. A família ainda mora no estado espremido entre Paraná e Rio Grande do Sul, por isso as suas visitas e as sacolas chegam espaçadas em meses, o que o obriga a levantar recursos com os automóveis. O dinheiro obtido com a venda dos carros de papel ajuda a manter alguns quitutes em dia na unidade, privilégio para poucos. Não cabia dentro de si diante da expectativa da visita de uma nova namorada dali alguns dias.

Esse homem de sobrenome alemão curto tem 30 anos e um pincel afiado: já coloriu 18 quadros. Ele chegou ao setor da marcenaria em 20 de fevereiro e desde então se juntou aos alunos da pintura, logo na segunda aula. O catarina foi condenado a 23 anos por latrocínio (roubo seguido de morte). Segundo a Justiça, ele foi responsável pelo assassinato e por passar a mão em um caminhão do próprio padrinho. No dia da aula, cumpria aniversário de chegada na PCE: três anos – tipo de data que ninguém comemora. Essa é a sua terceira passagem pelo sistema, está há cinco anos e quatro meses preso desde a última algemada.

Além do latrocínio, ele responde por outros dois assaltos em Santa Catarina. “A gente demora para aprender. Eu não tenho nada a ver com o latrocínio, apenas intermediei a venda desse caminhão. Mas assumo os assaltos. E veja onde estou, com 30 anos. Não tenho carro, dinheiro guardado, nem mesmo uma bicicleta”, desabafa. “Mas tenho essas aulas de pintura, os meus quadros, meus carros de papel. É uma coisa que a gente se apega, aprende e se diverte”.

E conta vantagem. Em alguns dias, uma affair de longa data o visitaria pela primeira vez dentro da unidade. Ela soube das grades através da mãe dele, se encontraram num enterro de gente conhecida poucos dias antes. Desde então, começaram a trocar cartas e marcaram esse encontro. Segundo ele, estudaram juntos da 1ª à 8ª série em Fragosos, distrito de Campo Alegre, quando a contagem do Fundamental ainda era em séries. Além disso, tem dois filhos com outra mulher, de 10 e 12 anos. Casou-se aos 17, mas já desquitou.

“Decidi parar de fazer coisa errada quando fugi da delegacia de Mafra. Eu tinha um carro e R$ 60 no bolso. Ainda coloquei R$ 40 de gasolina e fui para Maringá porque tinha visto na televisão que era uma cidade legal para se viver. Consegui emprego em um lava-car no mesmo dia. Sempre estive envolvido com carro, auto-peças, eletrônica. Talvez por isso dos carros de papel”, conta. “Vivi com minha família por nove meses e dez dias na cidade, até policiais civis cumprirem um mandato de prisão em aberto. Eu sempre trabalhei. Na Casa de Custódia de São José dos Pinhais (onde ficou dois anos) trabalhei na costura. Também fiz remição pela leitura aqui dentro. Mas, no papel, minha saída é apenas em 2022. Os quadros ajudam a diminuir essa espera”.

“Você pode falar com alguém do fundo da cadeia (jargão usado para os recém-chegados) e perguntar para qualquer um daqui da frente para ver a diferença. Essas aulas dizem muito para nós. Elas são uma terapia, e tem pouca terapia em um lugar como esse”, diz outro, o mais jovem deles, de apenas 25, que está há sete anos custodiado. Sua pena é quase a sua idade: 24 anos e uns quebrados. Ele é responsável pela alimentação dos funcionários da Divisão de Educação da unidade e se orgulha de ter remido mais de 500 dias de sua pena desde que entrou. Também já fez cursos de mestre de obras e de hidráulica dentro da PCE, quando o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) ainda ministrava aulas nas penitenciárias do Paraná. O programa foi cancelado nos últimos anos devido a fraudes nos comprovantes.

Ele é de Campo Largo, distante cerca de 30km de Curitiba. Ficou dois anos e seis meses preso na delegacia da cidade, “na Comarca”, como comentam entre si. Também foi condenado por latrocínio, apesar de nem saber que esse crime tinha esse nome. “Na verdade, eu quis matar o chefe da minha mãe. Ela engravidou e eles não quiseram pagar a licença dela. Eu fiquei bem bêbado um dia, chapadão mesmo, e fui até a empresa. Não fui sozinho. Naquela confusão, teve troca de tiro e um deles morreu. Não fui eu quem matou, mas fui acusado disso. Na saída eu peguei um DVD que era da minha mãe e estava na empresa, mas joguei ele fora, no mato”, conta. “Fiquei uns 10 dias assim, meio mocado. Mas um dia os policiais chegaram na minha casa e eu contei para a minha mãe o que tinha acontecido. Eles acharam o DVD. As vítimas me reconheceram e eu já fiquei preso”.

Ele participou do campeonato de futebol organizado na PCE, mas o time não era dos melhores: jogaram oito partidas e perderam sete, algumas por placares elásticos. Mora na 13ª galeria, no antigo isolamento da unidade, e até o começo do próximo ano deve progredir para o regime semiaberto. “Eu não estudei depois da 8ª série, mas sempre trabalhei. Eu trabalhava em um lava-car do Shopping Barigui. Nessa época era amigo do Carlos Murilo de Almeida, lembra dele? E quando sair quero continuar trabalhando. Tenho uma irmã pequena para cuidar”. Carlos Murilo de Almeida morreu no acidente envolvendo o então deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho, em Curitiba, em maio de 2009.

O mais velho dos pintores tem 48 anos, 25 vividos atrás das grades, a idade do amigo campolarguense. Ele não pôde trabalhar naquela manhã por causa de uma infecção séria no dedão da mão direita. Semanas antes, uma madeira dançou na serra fita e ele tirou uma lasca do dedo na tentativa de conter o esparrame. E ainda pegou uma micose na área do corte. É a sua terceira passagem pela prisão. Ele garante que nunca teve uma falta grave (tentativa de fuga ou porte de celular), que geralmente acarreta em dias de tranca.

“Eu nunca vi um projeto de pintura como esse em todos esses anos. É muito especial, revigorante”, atesta. Já pintou nove quadros, garante. Ele é o avô da turma e também na vida extramuros: tem seis filhos (cinco meninas e dois guris) e cinco netos (uma menina e quatro guris), e ainda vive com a mesma mulher, que trabalha como doméstica, com quem se casou aos 18 anos. Passou por nove rebeliões (“horríveis, inacreditáveis”), pela lendária penitenciária do Ahú (“conheço os guardas de lá até hoje”) e só progride para o regime semiaberto no final de 2018. Dessa vez, foi preso enquanto estava empregado com carteira assinada, funcionário da prefeitura de Curitiba. Ganhava R$ 1,909,00. Agora, tira apenas o pecúlio mensal de R$ 51. “Eu vou pintando. Logo recomeço”.

Um outro marceneiro da turma também é de Campo Largo. Tem 40 anos, 15 de condenação e está desde 2014 na PCE. Antes disso passou por Foz do Iguaçu, Céu Azul, Matelândia e Medianeira, sempre permutado com outro preso. É baixo, moreno, tímido e tem fala mansa. Explica com pesar o afastamento dos pais, pena muito mais dura do que a aplicada pela Justiça. “Meu maior medo é não ver mais o meu pai. Ele tem 76 anos, venceu um câncer de próstata há apenas dois anos. Ele trabalha com madeira, me ensinou tudo o que eu sei. Mas já não temos mais contato, eles não aceitam a minha vida assim. Ainda quero ver ele quando sair daqui”, afirma.

Ele tem uma filha de 18 anos que acabou de entrar na faculdade. A ex-mulher é professora. E só sabe disso porque as visitas de outros presos contaram. “Eu não tenho mais contato com elas. Eu perdi os laços com o mundo. É minha terceira passagem já, vamos perdendo um pouco de cada vez”, lamenta. “Quando sair, no ano que vem, eu vou sumir. Vou para bem longe da família, mais uma vez”.

Uns querem fugir de outro jeito, para dentro do cobertor. “O que eu quero é sumir dessa vida de bandidagem, não leva a nada”, conta outro pintor, de 38 anos, que furtava casas de gente grã-fina nos arredores do Shopping Pátio Batel até ser preso pela segunda vez. “Você aprende, a gente tem que aprender. Essas aulas de pintura, por exemplo, isso a gente pode usar do lado de fora. Isso mostra que tem tanta coisa para fazer do lado de fora. Olha tudo o que eu roubava, era uma vida de mentira. Quero viver uma vida de verdade”.

Está há dois anos e seis meses preso, dois anos apenas na PCE. “Na minha primeira passagem também acabei na PCE, mas foi uma época difícil. Eu cheguei dois meses depois da rebelião de 2010 (uma das maiores da história do Paraná), então não consegui me encaixar em nada. Mas aqui eu fiz um curso de vendas, concluí o Ensino Médio através do Enem, trabalho na marcenaria. É tudo muito diferente”, pondera. Também não tem mais contatos com os filhos. “Só posso imaginá-los. No fim, é a mesma coisa da pintura. A gente imagina os cenários”.

Quem fez mais quadros de fevereiro a maio foi o outro auxiliar da pedagogia, de 27 anos. Ele cuida dos documentos, auxilia o projeto de remição por leitura, leva e traz demandas do interior para os funcionários. Diz ter pincelado mais de 20. “Com certeza fui um dos que mais fiz. Além disso faço sacolas, bolsas, mochilas. Não que seja uma competição, mas eu me empenho muito”. Um dos seus quadros foi escolhido pela juíza Fabiane Pieruccini quando conheceu o projeto Arte no Cárcere, em visita acompanhada pela presidente do Conselho da Comunidade, Isabel Kugler Mendes.

Não é por menos, ele teve treino prévio: há algum tempo, fez parte da equipe de seis presos que completou a pintura do corredor central da PCE e os pátios de visita da unidade. Foram seis meses desenhando e colorindo o cimento bruto, tingido de sangue durante a rebelião. É a sua segunda passagem. Na programação, de acordo com a sua ficha de execução penal, deixa a unidade em 2020, mas quer antecipar isso. Ele tenta formalizar a remição de seis meses de um curso de teologia, que fez à distância, e está tranquilo de sua inocência no caso de tráfico e homicídio pelo qual foi condenado há mais de seis anos de privação. “Eu tive minhas escapadas, mas dessa bronca não fui responsável”.

Os quadros pintados pelos presos serão expostos no Museu Alfredo Andersen nos próximos meses e também estão sendo vendidos para juízes, promotores e advogados para que a unidade possa comprar mais material para ampliar o Arte no Cárcere. Para Douglas Krieger, professor e artista plástico que coordena as atividades, essa experiência precisa ser replicada. “O talento deles é impressionante. Eles precisam canalizar essa energia em um bom projeto. Foram mais de 200 quadros. Eu acho que nós sempre acertamos quando o objetivo é o desenvolvimento das pessoas”.

Krieger, que já completou 60 primaveras, chega a tomar quatro ou cinco canecas de café doce por aula. “Eles não param de me trazer um espressinho, rapaz. Você precisa ver. É o jeito que eles têm para agradecer”.

Bastidores do projeto
Os 12 pintores da PCE já fizeram mais de 200 quadros
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