Entre os muros de trás do Complexo Médico Penal (CMP) e a Fazenda Canguiri, do setor de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, vivem os doze “presos” mais livres do sistema carcerário do Paraná. Sem algemas, sem tornozeleiras eletrônicas, sem horário para encontrar o sol e sem penas a cumprir. A Casa Verde, como chamam, a julgar pela tinta guacamole, é a última instalação da rua de asfalto da unidade, logo depois do galpão da manutenção, onde quatro agentes penitenciários se revezam diariamente no manuseio de pás, parafusos, alicates, brocas, lâminas e martelos. As portas das duas casas ficam abertas ao vai e vem durante o dia.

A Casa Verde tem cheiro de casa de vó, som de lugar ocupado, muitos lugares a se sentar. E o que mais personifica o lugar não são os armários antigos ou os remédios ou a ausência de cadeados, mas o bule de café preto em fogo alto. Um dos doze é dono de uma caneca da Folha de S.Paulo.

Um pequeno hall no fim de uma rampa abre a residência, e o primeiro salão já é um quarto-sala espaçoso de camas perfiladas em formato de U, armários, duas televisões (uma preta e uma cinza) de poucas polegadas e um sofá de muita história. Logo ao lado, a cozinha, grandiosa, tem um fogão de seis bocas onde fervilham café e chá preto, duas pias-cubas industriais, geladeira, balcões e temperos doados pelos agentes penitenciários para aprimorar as marmitas entregues pela unidade. O banheiro atrás da cozinha tem água quente.

Do lado de fora, há uma mesa para jogos de botão, um tanque para lavar roupa, espaço para colocar as botinas e a suíte de R., que aparenta comandar as atividades locais. Ele é o mais jovem de todos os soltos e tem o seu próprio cortiço com cama, armário, um rádio e um banheiro privativo de ducha quente. No gramado, um varal de arame farpado segura umas peças de roupa.

A., de uns 40 e tantos anos, se apresenta. Diz que a Casa Verde é o melhor projeto da história do sistema penitenciário do Paraná.

A Casa Verde é um projeto do diretor do CMP, Jeferson Walkiu, e do chefe da segurança, o BA, para dar mais dignidade aos asilados. Até novembro, antes do último mutirão carcerário, 38 deles ficavam dentro das celas comuns da unidade, principalmente nas galerias 1 e 2, dos medidas de segurança. No mutirão, esses nomes foram levantados e o diretor pediu ao Depen e ao Poder Judiciário autorização para transferir os presos do regime fechado para o aberto-improvisado, uma vez que já haviam cumprido as medidas cautelares impostas.

Ao mesmo tempo, a unidade estabeleceu uma parceria com o setor de saúde mental da Secretaria de Estado da Saúde, e parte dos presos foram transferidos para a Associação Filantrópica Dom Getúlio, em São Jerônimo da Serra, no interior do Paraná. A casa de recuperação entrevistou os presos e levou primeiro oito, depois seis, e deve levar mais cinco até o final do mês. Ainda restam presos asilados dentro da unidade, e doze deles estão na Casa Verde.

Nos fundos do CMP, eles têm direito à alimentação padrão do sistema, tratamento médico e odontológico, medicamentos e espaço para a criatividade.

Geograficamente, esses doze dormem a cerca de 300 metros de distância de José Dirceu, Eduardo Cunha, Gim Argello e outros seis lavajatos, que estão sob custódia na 6ª galeria, logo na entrada do CMP. Mas, se duvidar, chegam a circular a menos de 20m deles ao longo dos dias, contando as cercas e paredes.

Um deles, M., trabalha no refeitório dos agentes penitenciários, colocando e recolhendo as misturas no buffet, e limpando pratos e mesas. As roupas que veste foram doadas pelos próprios agentes. Ele é figura fácil no dia a dia da unidade.

M. sabe de bate-pronto a história de R.. Certo dia, R. saiu caminhando pelos fundos da penitenciária, onde não há sequer uma cerca, e não voltou mais. Duas semanas depois, foi encontrado por um agente penitenciário nas ruas de Quatro Barras, também na Região Metropolitana de Curitiba, procurando lixo em um latão de rua. Convidado a voltar, aceitou a boa vontade e já está de volta à rotina sem horário da Casa Verde.

“Estamos melhores que muitos que nunca praticaram crime. Nós trabalhamos, ajudamos na manutenção da unidade, fazemos academia, nos alimentamos, ocupamos o nosso tempo. Muito melhor do que sair, não receber oportunidade e ter que morar na rua. Aqui moramos numa casa”, conta A..

“Temos até uma horta”, intervém H., muito modestamente. A terra os dá, de ciclos em ciclos, rúcula, mamão, cebolinha, repolho, cenoura, banana, alface, aipim e maracujá. Devidamente fardado com uma sete léguas e um boné simples, H. é o zelador do arado: alinha, revira, planta, colhe, replanta, afofa, rega, ampara, cerca, revira, carpe, corta, segura, puxa, realinha, orienta. “Vamos ter cenoura em breve, você tem que ver”. Ele é o chefe do setor, alvo de piada se falta legume no cozido da casa.

H. também remodelou uma bicicleta velha para servir de ergométrica para os outros asilados e pedala para tirar uma foto. Já A. improvisou uma academia ao ar livre com direito a um saco de boxe feito de plástico. R., o que caminhou para fora, agora dorme mais do que os outros, denunciam. M. está sempre perto da recepção e da direção da unidade. Os outros descarregam a comida dos detentos, puxam um ou outro fio, fazem rampas, recebem orientação para todo e qualquer tipo de trabalho.

Graças a Walkiu e BA, que não param de receber elogios dos doze, o CMP se transformou no único lugar do sistema penitenciário do Paraná onde policiais militares e egressos se esbarram diariamente, sem prejuízo de olhares desconfiados dos dois lados – a PM tem um batalhão na unidade. Quem garante a assertiva é Polaca, cachorra adotada por BA, os soltos e os policiais. Ela dorme um pouco em cada casa para não magoar os saudosos, e também tem seu potinho de água e ração em cada esquina.

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