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Em meados de fevereiro, Kendra Canedo Zanetti teve em mãos essa escolha: encarar as ruas na cola de uma tornozeleira eletrônica ou dormir mais sete meses no cárcere do regime semiaberto. A sabatina foi capitaneada pelo juiz Moacir Dala Costa, da 3ª Vara de Execuções Penais, durante um mutirão carcerário. Ela mal titubeou depois de ouvir defesa e acusação e optou pela liberdade. Kendra havia passado os dois anos anteriores no regime fechado da Casa de Custódia de São José dos Pinhais.

Na terça (21), ela esteve no Conselho da Comunidade para reverter sua decisão: Kendra não teve o apoio dos pais com os apitos da máquina no pé, não conseguiu um único emprego informal em liberdade e, na colcha, também queria rever o sétimo namorado. Ela queria que o Conselho intercedesse em seu favor.

Kendra nasceu William Canedo Zanetti e enfrenta dupla adversidade: o preconceito contra transgêneros dentro do cárcere destinado aos homens e a pecha de perambular sob vigilância – e também de calça, em qualquer ocasião. “Geraria um constrangimento absurdo para os clientes”, chegou a ouvir da dona de um salão de beleza ao tentar um encaixe numa vaga de cabeleireira. 

Kendra é manauara das mesmas paisagens da pena de Milton Hatoum, mas em sua identidade é possível ler Tibagi, na região dos Campos Gerais do Paraná. Ela foi adotada aos cinco meses de idade, logo após a mãe de parto quase ter lhe entregue aos cuidados do rio. Não tem um único sotaque nortista. Ela sempre soube de tal condição, e aos cinco anos caiu em si também sobre a questão de gênero: havia nascido homem, mas era feminina dos pés à cabeça. Aos 12, contou para os pais, que nunca lhe dirigiram um senão. Ela tem dois irmãos mais novos e diz que nunca sofreu, nem mesmo na escola. “Eu sempre fui muito segura e tive apoio. Até mesmo na escola: nunca me escondi e sempre me defendi”.

Aos 16, largou o terceiro ano do Ensino Médio para cair na rua, “vítima de companhias daquela época”, assegura. Ela tem 28 anos e passou os últimos 12 nesse cai-recai. Traficou e usou grandes quantidades de pó em uma casa noturna, ao lado dos programas e das apresentações de pole dance. Teve seis maridos. Ela conta: dois morreram a bala, no submundo, um morreu atropelado e os outros três relacionamentos tiveram fins naturais. “A gente foi se afastando, afastando, até terminar. Não foi nada traumático”.

Ela chegou a faturar R$ 17 mil em único dia nesses dias de Laranja Mecânica. “Eu nunca tinha visto tanto dinheiro. Tudo na minha mão, dinheiro vivo”. Mas também viu vacas magras, e chegou a pegar algumas coisas da própria casa para vender. “Mesmo assim eu sempre senti o amor dos meus pais. Acho que é um amor até mais forte do que eles têm com os meus irmãos, que são biológicos. Eu decepcionei eles, mas agora quero dar a volta por cima”. A mãe nunca deixou de visitá-la enquanto esteve presa na Casa de Custódia de São José dos Pinhais (CCSJP). Pai e irmãos nunca apareceram.

Ela chegou na CCSJP em 2013 para morar na 5ª Galeria, o famoso “seguro”, onde ficam os “presos sem convívio”. Diz ter participado dessa decisão. “Se eu ficasse com os outros, teria que entrar com droga, celular, essas coisas. Não teria escapatória. No seguro, não”. Ela dividia a cela com outros seis homens, “todos muito respeitosos”. Nessa ala, não trabalhou nem mesmo como faxina, que é entregue aos presos que podem circular por toda a unidade. Foram dois anos na rotina cela-pátio. “Não foram bons, é óbvio, mas também consegui pensar mais em mim”.

Logo em seguida, foi transferida para a Colônia Penal Agroindustrial, onde a prisão é da consciência, e fez a pior das escolhas: se evadiu, junto do marido da época. 

No dia 3 de fevereiro, depois de meses foragida, se entregou. Já havia contra ela um novo mandado de prisão. Ela ficou na Casa de Custódia de Piraquara, onde são aplicados os castigos de fuga da Colônia. No dia 6, cinco agentes penitenciário a seguraram a força e cortaram seu cabelo intacto de doze anos. Perdeu parte da força ao voltar a ficar com “cara de homem”, como disseram. Seu drama se desenrolou até o juiz Moacir Dala Costa colocar Kendra para fora da penitenciária. Com a tornozeleira, ela teria que permanecer em casa das 23h às 5h, mas, sem emprego, se viu impedida de colocar um único tostão em casa por vias legais. Agora, com o auxílio do Conselho da Comunidade, ficará até o dia 20 de setembro na Colônia Penal Agroindustrial, e, ao sair, não terá mais que ligar a tornozeleira na tomada. Isso se fizer as escolhas corretas.

Kendra tem voz afiada, fala sem amarras. “Tem muito empresário de Curitiba que usa boneca à noite. E pagam fortunas. Nós sabemos todos os nomes. E também todas as histórias.” Quais? “Deixa para quando eu voltar, com cabelão grande novamente”. Ela não vai trocar o sexo, como dizem. “Não tenho coragem. Nunca criei coragem. Muitas amigas minhas se mataram depois da cirurgia. Por enquanto, vou ficar com o que Deus me deu”.

E o namorado? “Estou louca para vê-lo”.

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