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Foto: Divulgação

Moreno, alto e magro, retrato do preso brasileiro, Evandro chora copiosamente quando fala sobre as duas filhas, de 9 e 6 anos. Elas se alimentam melhor na escola municipal do que em casa. “É a melhor refeição das duas”, afirma. Essa cena faz parte da rotina de segunda à sexta-feira dessa família de cinco almas – contando ainda a mulher, de apenas 24, e uma nova menina, que ainda repousa no ventre da mãe. O choro da verdade parece que antecipa essa nova fome.

Na despensa, enumera, apenas cinco quilos de arroz, um de polenta e alguma farinha de trigo. Esse é o prato do dia, todos os dias, quase nada para alimentar as mulheres de sua vida.

Há pouco Evandro quebrou o braço direito e o que já era difícil se tornou praticamente impossível. Ele trabalhava de auxiliar em uma obra quando uma pilha de tijolo tombou sobre o rádio, partindo-o, na altura de uma tatuagem. Logo foi operado no Hospital do Trabalhador, mas, ironicamente, depois de sarado, não conseguiu mais emprego. Deixado de lado pela incapacidade física e pela burocracia.

Nesse segundo ponto a agrura é a mesma enfrentada por outros egressos ou apenados do sistema penitenciário: há boa vontade de todos os lados, mas ela vem acompanhada do pedido de posse do título de eleitor. Legislação, dizem. O problema é que o título de eleitor só pode ser entregue no fim da pena; no caso de Evandro, dia 20 de junho de 2021. Enquanto o seu regime é aberto, nada feito. Ele comparece perante juízo apropriado a cada dois meses para assinar a papelada. Só não pode preencher o contra-cheque.

Somam-se a esses vetores uma bronquite asmática controlada com inalação diária e pedras no rim, suportadas na base do remédio. Na última vez em que veio ao Conselho da Comunidade, os rochedos começaram a “explodir” no caminho, parado de pé no ônibus. Ele desmaiou, foi internado e ficou um tempo acamado. Quando bem, tentou outros três empregos junto ao Sine, em dois supermercados e em uma distribuidora de carnes. Todos pediram título de eleitor.

Diante desse cenário, Evandro pena para não voltar ao crime, que lhe é tão fácil. Está cercado de conhecidos do mundo das drogas lá em Araucária. Dos 26, completados em setembro, pode dizer que viveu plenamente apenas 25. O outro foi no xadrez, fruto de porte ilegal de arma e assalto à banco, cumprido na Penitenciária Estadual de Piraquara II (PEP II). Foi em 2015, num dia de pouco movimento. Ele se rendeu depois do primeiro apito da polícia.

Nessa época, o relacionamento com a mulher, iniciado quando jovens, já ia de mal a pior. Ela nunca gostou “do mundo das ilicitudes” em que ele estava envolvido. Já tinham as duas filhas quando do ocorrido, são amasiados. Ela sempre o visitou na prisão. Evandro prometeu que nunca mais se envolveria com coisa errada. Chorou mais uma vez quando contou.

Tal qual o personagem principal de Desonra, do sul-africano J. M. Coetzee, Evandro rompeu o ímpeto do desejo em busca do conforto da casa e de um recomeço. A mulher trabalha há um ano em uma farmácia no bairro Água Verde, em Curitiba, e agora, barrigudinha, repousa na licença-maternidade. Ela tem família longe, em Santa Catarina, também pobre, sem condições de ter muito mais que um pão. A mãe dele tem outras pendências e ajuda quando pode.

Na cadeia, Evandro fazia remição por livro. Eram histórias infantis, de personagens de aventura, e depois do ponto final ele precisava responder a uma prova. Tinha cinco dias para cravar. A remição por leitura lhe rendeu algumas semanas, mas o único livro que leu, de fato, foi a biografia do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal. “Os guardas me deram, fiz questão até de levar para casa. A história dele é incrível”, resume.

Mas o foco da sétima visita dele ao Conselho foi mesmo o pão na mesa. Evandro já trabalhou como auxiliar em um açougue, marmorista, ajudante de descarga e de produção. Ele fez um técnico em computação e agora fará, com auxílio do órgão, um em panificação. Com a última cesta básica, já havia fabricado uns pães para vender pelo bairro. Involuntariamente, a vida volta a girar em torno da farinha de trigo. E de uma nova oportunidade.

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