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Censura Privada narra a história de uma mulher em busca de satisfação e esquecimento. Talvez ela seja rapariga, conta Elza, sobre a possibilidade de desenhar a personagem principal com muita juventude e disposição para o namoro sem amor. O pano de fundo é o Rio de Janeiro tal e qual o município sombreado pelas crônicas de Lima Barreto, sujo de sangue, suor e desafios. O livro conta os passos de uma mulher que é viciada em duas ou três drogas, ao sabor da ocasião: álcool, crack ou cocaína. A gostosura tem ordem decrescente, garante.

As linhas, obviamente, serão para maiores de 18 anos, um livro que não tem censura sobre a vida privada. Ele poderia se chamar Só Adrenalina, talvez até se chame, mas o outro nome apetece mais. Um texto sem nãos porque essas necessidades só aceitam sins.

Aos 39 anos recém-comemorados, Elza disfarça quieta sobre a veracidade dos relatos, mas é evidente que o livro trata de memórias fotográficas. Ao invés de olhar para cima, para o mundo das ideias, ela caça migalhas no chão, como se espiasse o pé entre a lente de um óculos e a pele. Cheia dos pudores em pessoa, mas sem nenhuma dúvida com o lápis em riste. A começar pela personagem-luz, podemos cravar que essas mulheres são iguais: a história é de uma moça que viveu nas ruas fluminenses por dois anos e tantos, entre outras prostitutas e dinheiro fácil, como dizem, tal e qual a própria; o documento traz um festival de substâncias e nomenclaturas de linguagem fácil, como dizem, tal e qual a sua; as marcas no corpo e na mente são visíveis a olho nu, apesar de reprimidas, como dizem, tal e qual a sua. Não tem erro: vai ser tipo Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída ou O Doce Veneno do Escorpião, um livro de frases exclamadas.

Esse vai ser o terceiro conto de Elza. Os outros dois são infantis, prova máxima de que violência não apaga aqueles bons anos. As Aventuras de Hugo e Guga – Navegando no Iguaçu e Paddock – Amigo da Natureza são tipo indianas jones dos dias atuais, mas sem apego às artimanhas. Parecem esses desenhos do Cartoon, todos coloridos, fáceis. Esse último inclusive recebeu apoio da Lei Rouanet e já está publicado, mais ou menos ao alcance de todos. Nem no Google pode ser encontrado. O outro foi escrito com caneta azul e ainda repousa num maço de papel unido por um grampo simples. As folhas têm manchas de tempo: café, borrados e dedões.

Elza tem realmente muito a contar enquanto não sabe o que fazer com os pensamentos de suicídio. É tudo muito grave. Ao que tudo indica, ela prefere roteirizar o desabafo ao invés de vivê-lo.

Os livros não têm nada de novo, a não ser André.

Tudo começou com o pai, Euclides, que era acometido por uma série de distúrbios psicológicos. Elza conta que ele matou a mãe com veneno de rato, e, além disso, o fez calma e tranquilamente. A mãe foi consumida pouco a pouco, em pequenas doses, e levou em torno de um ano para morrer. Foi sumindo, sumindo, sumiu. O irmão, André, tinha 15 anos quando tudo isso aconteceu. Ele também escuta vozes – Elza não sabe se já as ouvia antes.

O drama tomou novas proporções quando André decidiu enterrar os dias do pai, logo depois de encerrar também algumas imagens sacras de uma igreja evangélica num ataque de ódio. Os acessos lhe colocaram no Complexo Médico Penal, em 2015. Talvez as vozes digam e ele, marionete, replique, mas ninguém nega que ele é autodidata e aprendeu, segurando o próprio dicionário, espanhol e francês. Fala para quem quiser ouvir, mesmo tendo completado apenas o segundo grau.

Elza tem saudade dos dois, mas mais de André. Ela alcançou o Conselho da Comunidade por causa dessa saudade; palavra difícil de escrever, mas fácil de arrepiar. Humildemente, queria ajuda para tirar André do isolamento. Ela acha que ele sofre uma dor indizível atrás das grades. É esquisito, porque esse sentimento beira a dor da carne. “Não podemos nos comprometer a tirar ele de lá”, dissemos. “Tudo bem, vocês podem ver os livros”.

Elza escreve fácil, não redige pareceres, mas tem no currículo dois anos de Direito e mais dois de Assistência Social. Agora ela é técnica de Enfermagem. Em casa, tem um filho. Na vida, dois. O pequeno, de 4, é filho de Jonas, seu atual companheiro. A mais velha, de 18, calhou de vir em momento conturbado e terminou o amadurecimento num orfanato. Elas não se veem.

Jonas, 54, miúdo do pé à cabeça, pode concorrer a título de cidadão mais humilde do mundo, fácil, fácil. Ele não lê porque não sabe, e justamente por isso Elza conta as suas histórias em voz alta. Escreve, lê e recita, página por página. Jonas cuida de carros na Região Metropolitana de Curitiba para ajudar a compor a renda familiar, que anda às mínguas.

Elza também é silenciosa. Não conseguiu falar em voz alta, mas desabafou para outrem que é abusada por familiares de Jonas logo após o álcool em excesso. A defesa tem poucas palavras, como ficam os que ouvem sua história. Há ainda outra irmã, que estava na igreja apossada por André. Nem pai nem irmão aceitavam a redenção dela pela fé. Hoje, ela trabalha no Fórum de Fazenda Rio Grande, também na Região Metropolitana de Curitiba, e nunca visitou o irmão no xadrez.

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