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Divulgação

A Rua Amor Perfeito, em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, tem quatro quadras e casas bem simples, dessas com número pintado à mão e arquitetura de desenho. Um pouco mais ali passa o Rio Iguaçu. Mais além resta a Caximba. Aos lados, enfileiram-se as ruas Cactus, Jasmin, Flor-de-Lis, Samambaia e Avenca. É uma descida irregular. Num milharal às margens, aos 27 dias de maio de 2012, morreu o dono de uma caminhonete e nasceu mais uma viagem na vida de Maria.

Tudo começa quando Simone, a mãe, foi consumida pelo câncer. Essa história mudou os traços de Maria. Ela tinha apenas 11 anos, era a mais velha de cinco – os irmãos tinham 10, 5 e 3 e o mais novo apenas 7 meses, menos tempo de sol do que sombra. Fernando Henrique Cardoso era presidente do país.

Simone sucumbiu a um câncer avassalador no intestino, o primeiro da vida de Maria. À época, a família morava nas encostas de Santa Felicidade, perto de um Corpo de Bombeiros. O pai, que não lê, não pontua e vive de uns rebocos, tocou o timoneiro da casa. Ele sempre foi um guardião. Quando a mulher faleceu, protegia as frutas e verduras do Ceasa. Apesar de tudo, teve que continuar na labuta, mas os vizinhos logo denunciaram o caso da família para o Conselho Tutelar: uma menina de 11 cuidava de 4. O órgão deliberou por não permitir que um bebê de 7 meses ficasse nessa condição. A tia ajudou.

Há 3 anos, outro câncer. Antonio, irmão, faleceu também vítima de avalanches no intestino. Era catador de papelão e tinha o coração nas mãos, segundo Maria. Solteiro, passou aos 28 anos.

Há 4 meses foi a vez de outra irmã, Sonia, vítima de um câncer de estômago. “Definhou até a morte. Ficou amarela, pálida e o fígado explodiu”, diz Maria. Sonia deixou quatro filhos: uma menina de 11, um menino de 8 e gêmeas de 4. Foi no Dia dos Namorados. O parceiro dela era usuário de drogas, segue por aí e “não compra uma bolacha para as crianças”. Sobrou para Maria, uma filha de 18 recém-completados, o marido e o pai. Ela pulou de quatro para três irmãos e de um para cinco filhos no mesmo dia.

Como se não bastasse, as flores de 2012 lhe trouxeram outro causo, o da viagem do lide. Envolve Jair, 27 anos, preso da Penitenciária Central do Estado (PCE) por latrocínio. O irmão foi cúmplice de um assassinato e agora, depois de 4 anos e 7 meses, trabalha na limpeza dos corredores da penitenciária. Ele foi condenado a 21 anos em regime fechado. Livramento condicional somente a partir de 30-10-2025. Há 3 anos passou por uma cirurgia por causa de um câncer no intestino.

Segundo Maria, todas as idas ao banheiro de Jair são punições impostas por certo Deus. Nada de cura. Ele tem varizes internas que estouram quase que diariamente. Jair já passou algumas vezes pelo Complexo Médico Penal (CMP), que recebe os doloridos do sistema penitenciário local, e os diagnósticos são parcos: apenas exames de sangue. Maria quer ao menos uma endoscopia. “Já perdi dois irmãos para o câncer. Agora estou às vésperas de perder o terceiro”, diz. “Ele é o único envolvido em coisa errada. Nós somos muito simples, mas o pai sempre disse: o que é nosso, é nosso; o que é dos outros, é dos outros”.

Jair já não come a risotolândia da penitenciária e tem sobrevivido a base de pão e miojo (são permitidos 6 pães e 12 miojos por mês, de acordo com as regras da sacola). Maria é a única da família que o visita. A PCE tem quase 1.700 presos e apenas 500 recebem visitas regularmente.

Ela conta que anda moleza. “Agora é mais fácil, não tem mais as revistas íntimas. Os agachamentos são humilhantes. Mas não passa vez sem alguma coisa. Eles sempre pegam, elas não aprendem. Agora, eu levo duas horas para chegar até Piraquara. Essa é minha viagem”, diz.

A peregrinação não é a primeira. As idas e vindas começaram quando Sonia ficou doente e se mudou para a casa de Maria com as crianças. Depois, elas ficaram entre Curitiba e Campo Largo nos hospitais. Sonia calhou de morrer aqui mesmo. O caixão foi pago em três vezes. “Acabamos de cobrir o último cheque. Foi aqueles de 30-60 dias”.

Antes disso, Maria trabalhou por cinco invernos na Mondelez, mas teve que largar o emprego quando a família começou a diminuir e aumentar. A filha trabalha em uma panificadora e ajuda nas contas da casa. Ela já foi menor aprendiz no Spich, restaurante que serve buffet livre a R$ 4,50 nas ruas do centro.

O marido é porteiro no mesmo prédio há 13 anos, ironicamente no bairro Portão. Com as crianças rondando a casa, Maria não consegue trabalhar. A filha adotada mais velha, de 11, vai mal na escola: está apenas na 3ª série. O de 8 está na 2ª. Todos estudam no colégio municipal João Amazonas, no Tatuquara. A conta de Maria ainda é em série.

A filha de sangue, Geni, tenta ensinar Maria a entender as palavras. “Você precisa ler”, ela diz. Já as adotadas têm questionamentos mais indecifráveis. “Tia, você disse que minha mãe virou uma estrela, como pode se eu pergunto por ela e ela não responde?”, diz a mais velha, que cuidou na mãe quando mal sabia cuidar de si. As gêmeas falam: “tia, temos tanta vontade de conhecer ela”.

João, o irmão de fora, tem outros 4 filhos e é frentista. Jair não tem herdeiros. Segundo Maria, ele é motivo de chacota na cela que divide com outros seis. “Ele é do bem. É crente”. Na delegacia de Araucária, para onde foi levado logo após o crime da Rua Amor Perfeito, ele ficou detido com mais de 100 num espaço de 40.

Maria e João já fizeram todos os exames e não têm indicativo de câncer. As crianças também estão a salvo. Ela, no entanto, tem hipertireoidismo. Nos últimos tempos também recebeu um papel, via postinho de saúde, do hospital onde a irmã morreu. As letras acusam negligência médica. Está encucada com isso. O caso descansa na papelada da Defensoria Pública.

Sonia tinha 33 quando o caixão fechou. Faria 34 no mês seguinte.

Maria, o pai, o marido, e as três sobrinhas nasceram em abril. Só quer dizer algo para quem lê estrelas direitinho. Sobre Jair, ela só tem uma frase: “é sangue do meu sangue. Não vou desistir dele”.

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